Sylvia Masini/Divulgação
Sylvia Masini/Divulgação

Bosch em leitura superficial

Coreografia de Foniadakis para Balé da Cidade é um punhado de materiais reciclados

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

O dano teria sido bem menor caso Paraíso Perdido houvesse sido mantido dentro do tamanho previsto pela direção anterior do Balé da Cidade de São Paulo. Na ocasião em que o coreógrafo Andonis Foniadakis, que cresceu na ilha de Creta, foi aventado como um futuro colaborador, Mônica Mion, a então diretora da companhia, planejou encomendar uma obra para compor um programa junto com outras. A atual direção optou por comprar uma peça de noite inteira e recebeu uma coleção de pedaços que, infelizmente, não conseguiu unificar-se como obra.

Quem se der ao trabalho de visitar o site do coreógrafo contratado, logo perceberá a "reciclagem" dos materiais lá expostos, especialmente na sequência de nove fotos de uma outra coreografia sua, Do Us Apart, criada no ano passado para o Ballet Geneva Júnior. Evidentemente, não há problema algum no fato de um criador "piratear" de si mesmo, pois uma linguagem se desenvolve a partir do que já se criou. A questão é outra: pensar sobre a solução preguiçosa de quem não se deu ao trabalho de investigar uma dramaturgia própria para o material que enfileirou em uma sucessão interminável de cenas.

A dramaturgia de dança difere da do teatro porque acontece especificamente no corpo e não no que o cerca. Há que se lamentar que, em Paraíso Perdido, o maior peso esteja fora do corpo e distribuído na música meteorológica de Julien Tarride, lotada de "climas"; na luz decorativa de Guilherme Bonfanti; no desfile temático do figurino de João Pimenta; nos truques das projeções de Foniadakis e Tarride; e, sobretudo, nas máscaras que Foniadakis parece gostar de empregar, assinadas por Igor Alexandre Martins. Não são os gestos que constroem os personagens, mas sim esse conjunto de excessos.

O mundo fantástico do pintor flamenco Hyeronimus Bosch (1450-1516) do qual diz ter partido ficou reduzido a uma paisagem de figuras fantasiadas que mais parecem superfícies de outdoors. Trata-se de mais uma dentre as centenas de coreografias sobre "a natureza da condição humana" que, como a maioria delas, perfila-se a serviço do lugar-comum.

O elenco não sossega, em um entra e sai frenético, no qual vai oferecendo ao público cada uma das muitas sequências de linhagem bejartiana que foram produzidas dentro de uma lógica de power point: o que se vê é um desfile de legendas povoadas por um excesso de passos autorreferenciais. Foniadakis é um legítimo herdeiro do entendimento de dança de Maurice Béjart. No seu Paraíso Perdido sobram dois ou três momentos, nos quais desponta um material que merecia ser compactado em uma versão final, da qual a atual produção funcionaria como o primeiro rascunho. A companhia desempenha a contento a sua ingrata tarefa, recuperando a qualidade que distingue seus competentes bailarinos.

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