Borghi organiza festival de teatro contemporâneo

Ao terminar a temporada de O Jardim das Cerejeiras, no mês passado, Renato Borghi sentiu uma certa saturação dos clássicos - antes de interpretar Gaiev naquela peça, o ator vinha de outra montagem de Chekhov, Tio Vânia. "São personagens maravilhosos, mas descobri uma necessidade mais urgente de investir na dramaturgia nacional", conta o ator, decidido ainda a fugir da solução mais cômoda: remontar um texto consagrado. "Minha intenção é revelar a produção dos novos dramaturgos, principalmente os que ainda não têm um espaço devido no mercado." Motivado pela idéia, Renato Borghi começou a articular o Festival de Dramaturgia Contemporânea, que deverá se realizar no segundo semestre.A sedução do projeto logo começou a se alastrar. Borghi selecionou um punhado de autores que julgou representativos da nova geração e convidou-os a escrever textos curtos, com tema livre e no máximo 30 minutos de encenação. Pediu ainda que não utilizassem mais que três personagens. "O objetivo é que cada um revele seu mal-estar provocado pelo momento atual", comenta o ator, que logo recebeu a confirmação empolgada de uma seleção de dramaturgos, todos já escrevendo: Fernando Bonassi, Bosco Brasil, Dionísio Neto, Mário Bortolotto, Leonardo Alckmin, Alberto Alvim, Luiz Cabral, Pedro Vicente, Léo Lama, Marcelo Rubens Paiva, Otávio Frias Filho e o crítico de teatro do Jornal da Tarde Alberto Guzik. Ainda não se decidiram Patrícia Melo, Aimar Labaki, Márcio Marciano e Hugo Possolo.O primeiro a entregar foi Bonassi, autor do monólogo Três Cigarros & A Última Lasanha em parceria com Victor Navas. "Trata-se de uma peça linda, mas extremamente difícil; será uma experiência nova em minha carreira", reconhece Borghi, escolhido pelo próprio autor para interpretar um homem metódico que, durante 25 minutos, expõe pacientemente os motivos de sua rejeição da mão que lhe foi implantada. O escritor inspirou-se no caso verídico de um operário inglês. "O monólogo me permitiu construir um texto baseado na argumentação, em que pudesse discutir a ausência de valores que marca nossa época", explica. "Pensei exclusivamente no Borghi porque a imagem mental que tenho dele é de um homem barbudo e atarracado."A peça será dirigida por Beth Lopes, que vai se encarregar ainda da concepção cênica de mais textos. Borghi pretende contatar outros diretores para dividir o trabalho, como Marcelo Drummond, Cibele Forjaz e Joana Albuquerque. "Com o texto do Bonassi e de outros três autores, abriremos o festival, que terá apresentações em blocos", explica Borghi, que ainda não determina data, pois procura um teatro para as encenações. "A cada novo lote de quatro peças, renovamos o repertório."Borghi vai dividir o palco com Élcio Nogueira, seu parceiro constante nos últimos projetos, e Bel Teixeira. Juntos, formam o Grupo do Teatro Promíscuo, decidido a buscar uma abertura no mercado para obras que contrastem com a média atual, marcada, segundo eles, pela falta de sentido. "Esperamos encontrar pessoas dispostas a investir nesse projeto."A expectativa pelo saldo do festival é muito grande. "Vamos apresentar a diversidade da nova corrente teatral brasileira, que hoje atua em forma de guerrilha individualizada", acredita Borghi. "A unidade desses autores é sua individualidade e o festival vai permitir que todos apresentem seu talento", completa Élcio Nogueira.Realismo - A previsão é a mesma dos dramaturgos. Mário Bortolotto, que finaliza um texto em que os personagens são três desajustados que têm os mesmos nomes dos atores, aposta em surpresas para os espectadores. "Ainda temos um público reduzido e poucos conhecem o vigor inquestionável da obra desses autores", acredita. "A maioria dos temas é tratada com grande realismo."Já Bosco Brasil, autor que tem a capacidade de desnudar personagens do cotidiano, um dos principais méritos do festival será o de apresentar o caráter urbano dos textos. "Os novos escritores cresceram em edifícios e assistindo à televisão", acredita. "O resquício rural, que era um assunto dominante da maioria dos textos mais antigos, ficou para trás."A visão urbana também é diferente da dos autores do fim da década de 60, quando um festival semelhante surgiu como um ato de resistência contra a censura. Em junho de 1968, a classe teatral organizou a 1ª. Feira Paulista de Opinião, no Teatro Ruth Escobar. Seis autores (Augusto Boal, Lauro César Muniz, Jorge Andrade, Bráulio Pedroso, Plínio Marcos e Gianfrancesco Guarnieri) escreveram pequenos textos, que seriam representados em seqüência. Como era obrigatório na época, as peças foram entregues para avaliação do Serviço de Censura Federal com dois meses de antecedência.Como também era rotineiro, os textos só voltaram poucos dias antes da estréia. Pior: com 84 cortes. Boal, que dirigia o espetáculo, alegou que seria impossível apresentar a peça com tantos vetos e, junto de outros artistas, tentou a intercessão do então ministro da Justiça, Gama e Silva. Com a demora na resposta, os artistas resolveram apresentar o texto na íntegra. Depois de duas sessões em dias seguidos, a Polícia Federal foi ao Teatro Ruth Escobar e impediu uma nova apresentação.Em clima de desobediência civil, os artistas escaparam da vigilância policial e rumaram para o Teatro Maria Della Costa onde interromperam a encenação de O Homem do Princípio ao Fim e fizeram uma montagem simbólica de seus textos. A solução veio com a negociação de alguns cortes, mantidos por Gama e Silva.

Agencia Estado,

09 de maio de 2001 | 16h18

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