Borges admirava faroestes e a Lua

Escritor pensava que bangue-bangue resgatava épico e conquista espacial era patrimônio da humanidade

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

30 de outubro de 2009 | 00h05

 
SÃO PAULO - Tigres, espelhos, duplos, duelos, Bíblia, imortalidade, paradoxos éticos - foram muitas as inquietações que inspiraram o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) a construir sua obra, uma das mais importantes do século passado. Mas ele também tinha preferências mundanas, como ouvir as canções de Pink Floyd (The Wall era hit em seu aniversário) e Rolling Stones. "E também se divertir com os antigos filmes de faroeste", completa o poeta e ensaísta Osvaldo Ferrari, que reforçou tal detalhe na série de diálogos mantidos com Borges, entre 1984 e 1985, todos transmitidos pela Rádio Municipal de Buenos Aires e mais tarde publicados - primeiro no jornal Tiempo Argentino, depois em livro. E é justamente nesse formato que as conversas chegam hoje às livrarias, sob a chancela da editora Hedra.

 

São três volumes, todos traduzidos por John Lionel O’Kuinghttons Rodriguez e que serão vendidos a R$ 20 cada um. Um total de 90 conversas em que Borges discorreu com extrema elegância e argúcia sobre assuntos diversos. O tema do primeiro livro são os sonhos, enquanto a filosofia inspira o segundo. E o último trata da amizade (leia ao lado). "Trata-se de um testamento literário, pois Borges exibia um grande vigor criativo, raciocinando sobre temas que poderiam ser tratados em críticas e análises", conta Ferrari ao Estado, por telefone, desde Buenos Aires. Embora 49 anos mais moço, ele estabeleceu um laço de extrema confiança com o escritor. "Borges pensava que não voltaria a escrever um ensaio, mas que talvez pudesse fazer isso de um modo indireto, como, por exemplo, através do diálogo", escreve Rodriguez, em um alentado prefácio.

 

É o que transforma o colóquio entre o escritor e Ferrari em algo mais profundo que uma simples conversa. As transmissões eram realizadas na biblioteca da casa de Borges. Então com 85 anos, ele padecia de uma fragilidade física (especialmente por conta da deficiência visual), mas exibia uma lucidez impressionante. Em suas exposições, organizava noções e opiniões, como se preparasse o rascunho de um texto futuro.

 

Borges valorizava o diálogo, considerado uma forma menor por alguns estudiosos. Para ele, não se tratava de uma troca mundana de informações, mas principalmente de uma partilha de leituras e opiniões sobre os problemas do ofício - seguia um aprendizado conquistado no Japão, onde é admirado o hábito de "supor que o interlocutor tem razão".

 

Os temas eram propostos por Ferrari. "Borges não gostava de ser avisado previamente sobre o assunto, pois assim podia estimular o raciocínio", conta ele, que buscava fundamentalmente tópicos literários, apesar de não abrir mão de outros segmentos do conhecimento. Aliás, foi por esse caminho que surgiu a única conversa sugerida por Borges. "Ele se empolgou ao comentar sobre a chegada do homem à Lua, mesmo tendo acontecido há muito tempo", relembra. "Para ele, era a façanha capital do século passado, algo comparado ao descobrimento da América."

 

Borges comenta sobre dois romancistas, Julio Verne e H. G. Wells, que, embora tivessem escrito sobre o tema, não acreditavam na possibilidade de isso acontecer. "Wells dizia que a Lua seria o primeiro troféu do homem na conquista do espaço", afirmou Borges que escreveu um poema para revelar seu contentamento. Uma alegria que ele considerou universal como na bela história contada a Ferrari: "Veio me ver o adido cultural da embaixada soviética, e, para além dos preconceitos, bem, limítrofes, digamos, ou cartográficos que estão na moda atualmente, ele me disse: ‘Foi a noite mais feliz da minha vida’."

 

Outro assunto que o empolgava era o cinema, especialmente os westerns que, para ele, salvaram o estilo épico. Borges revela seu apreço por Matar ou Morrer, dirigido por Fred Zimmerman em 1952. A história do homem abandonado pelos habitantes da cidade e obrigado a esperar sozinho pelo trem que transporta os bandidos encantava Borges pela forma como o uso do tempo desponta na narrativa. Como o comboio é esperado para o meio-dia, os momentos que antecedem esse horário ajudam a construir o clima de suspense, fortalecido pela constante exibição do relógio da estação. "Aqui, a representação, a ação, durava exatamente o que durava o filme", disse o argentino. "Acho que a única vez em que as unidades de tempo foram observadas de maneira tão rigorosa foi nesse filme de Gary Cooper."

 

O ofício literário, no entanto, era seu assunto predileto. Nas conversas, Borges revela o conhecimento acumulado sobre temas que amava - como o conto policial. Além de considerar o americano Edgar Allan Poe como fundador do gênero, ele detalha a obra de outros pioneiros, como Conan Doyle. "Aqui, ele comenta que a força dos contos desse autor repousa menos na trama que na amizade entre os personagens Sherlock Holmes e Watson - algo que observou, em outro lugar, também em relação a Dom Quixote e Sancho Pança", comenta o estudioso Walter Carlos Costa, autor do detalhado prefácio do volume que trata da filosofia.

 

Segundo ele, Borges lembrava que os começos dos contos de Doyle são particularmente sofisticados e que a variação constitui um de seus encantos. É curioso também o comentário de Borges ao notar que os personagens literários superam o seu criador. Assim, Sherlock Holmes e Dom Quixote são mais conhecidos que Doyle e Miguel de Cervantes. "Borges tem consciência de que o relevante em literatura se torna bem coletivo e que as grandes invenções do escritor se tornam patrimônio da língua", afirma Costa. "Ele vê todos os textos de todas as culturas e de todos os tempos como um conjunto interligado, em que são possíveis inúmeros cruzamentos e aproximações."

 

É o que explica a fascinante admiração de Borges pelas traduções. Para ele, a leitura de diversas versões poderia ser mais rica que a do texto original. "Ele sempre alimentou a curiosidade por novas traduções que surgiam a partir de algum clássico", conta Osvaldo Ferrari. "Borges vê a prática da tradução como uma espécie de terapia e de autoeducação estética", completa Walter Carlos Costa. "Ele considera o enorme corpus dos textos traduzidos no mundo, com sua enorme variedade de línguas e estilos, como um bem maior, um lugar tão ou mais rico, em termos literários, do que os textos originais, necessariamente produzidos em apenas uma língua."

 

Borges defendia ainda uma condição cosmopolita para os cidadãos, situação que só se conquistava a partir do exercício da ética. "Era um homem que pregava a verdade, franqueza que até surpreendia amigos mais próximos, como Bioy Casares", conta Ferrari. "Mas era essa defesa pela integridade que o permitia aceitar a velhice com tranquilidade, ciente de que a finitude era apenas mais um estágio a se ultrapassar."

 

Stones e do Pink Floyd

 

Jorge Luis Borges era fascinante não apenas como escritor, mas também pelas predileções heterodoxas. "Ele se sentia vitalizado pela música de Pink Floyd e Rolling Stones, que transmitia uma força que o tango sentimental e chorão não o fazia sentir", contou Maria Kodama, viúva e herdeira do escritor, à rede Deutsche Welle, durante a Feira de Livros de Frankfurt, ocorrida há duas semanas. "Borges até decorou diversas falas do filme The Wall, pois se impressionava com a enorme força das canções."

 

Kodama participou da apresentação da Argentina como país convidado à edição de 2010 da feira, na qual Borges despontou como um dos grandes nomes da cultura nacional, encarnando a identidade argentina de raízes europeias. Ela também acompanhou o lançamento de um atlas relativo à obra do escritor. Na entrevista, ela se lembrou de um momento singular, que aconteceu em um hotel em Madri.

 

O casal aguardava por uma pessoa que o levaria para jantar quando Mick Jagger se aproximou de Borges, tomou-lhe as mãos e disse: "Eu o admiro muito." Como não via com quem estava falando, o escritor perguntou quem era. Ao ouvir o nome de Jagger, Borges respondeu: "Ah, um dos Rolling Stones." Segundo Kodama, o músico ficou surpreso e perguntou como o conhecia. "Graças a Maria." "Eu havia contado a Borges que, no filme Performance (dirigido por Nicolas Roeg e Donald Cammell em 1970), aparecia uma grande foto dele e, se não me engano, Jagger surgia em uma cena lendo um livro de Borges."

 

Kodama lembrou da importância dos sonhos para o escritor. Em um deles, Franz Kafka lhe ditou o poema Um Sonho. "Estávamos nos Estados Unidos. Ele se levantou e disse que queria me ditar algo." E, apesar de sempre corrigir e modificar sua obra, Borges manteve intacto esse poema. Quando Kodama quis saber os motivos, ele respondeu, com graça, que não podia fazê-lo, até que Kafka "diga que corrija, em outro sonho".

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