Borges à luz da tradição judaica

Borges à luz da tradição judaica

Ensaio tenta aproximar a expressão do Talmude da arte do mestre portenho

Luis S. Krausz, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

E ste é um ensaio sobre as influências da tradição judaica sobre a obra do escritor argentino. Não é, porém, um estudo que busca vestígios de ideias, imagens ou pensamentos originários de certa tradição literária na complexa estética borgiana, e sim de uma obra que parte em busca de analogias: analogias entre os procedimentos literários heterodoxos de Borges e o caráter fragmentário, marcado pelas migrações e por milênios de exílio, do próprio pensamento judaico, conforme expresso nos monumentais acervos do Talmude, dos tratados místicos e das lendas.

A autora traça paralelos entre os vestígios que os sentidos cambiantes dos textos judaicos vão deixando na cultura e a prática do escritor argentino que "embaralha acervos, obtém cópias infiéis, rearranja e potencializa o sentido que recolhe e reinsere em outro contexto". Sua tese é que a obra de Borges segue um paradigma do instável complexo que se convenciona chamar de "tradição judaica" - um complexo que é tudo menos unívoco, livre de ambiguidades ou de questões abertas, herdadas de geração em geração. Esse paradigma é o do jogo, que traz em si a possibilidade de argumentação, na qual os discursos são geradores da multiplicação dos sentidos, e desencadeantes de interpretações.

A dúvida e o questionamento, assim, estão na raiz de uma conduta literária que jamais pretende conduzir a um significado unívoco, mas quer despertar para a multiplicidade de pontos de vista que necessariamente circundam cada um dos infinitos lugares da realidade. O labirinto torna-se metáfora da perda de referenciais fixos que caracteriza a literatura do "subúrbio do mundo", construída sobre bases movediças e sobre catálogos heteróclitos, em que épicos islandeses ombreiam com contos policiais de Ellery Queen para desafiar as hierarquias dos monumentais patrimônios culturais e nacionais. O que Borges compõe é um anticânone, marcado pelo olhar nostálgico que disparatados grupos de migrantes lançam sobre suas terras e culturas de origem.

Pensar a obra de Borges, e com ela mesmo a cultura latino-americana, como uma mescla de signos que produz novos sentidos, em contraposição a documentos que se pretendem portadores de verdades estabelecidas, e pensar a sobrevivência da escrita por meio da errância, talvez sejam os maiores dentre os muitos méritos deste trabalho.

LUIS S. KRAUSZ, DOUTOR E PÓS-DOUTOR EM LITERATURA E CULTURA JUDAICA PELA USP, É AUTOR DE RITUAIS CREPUSCULARES: JOSEPH ROTH E A NOSTALGIA AUSTRO-JUDAICA E AS MUSAS: POESIA E DIVINDADE NA GRÉCIA ARCAICA, AMBOS PUBLICADOS PELA EDUSP

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