Bons tratos à bola

Nem uma palavra sobre futebol?! – vieram reclamar alguns marmanjos que, tendo visto jogar Guilherme Cunha Pinto, o Jovem Gui, esperavam que o assunto fosse contemplado na crônica da semana passada, dedicada a essa esplêndida figura, cuja morte faz 20 anos neste 15 de julho. No caso do Zé Paulo, sobrou para o cronista, sobre o qual um comentário no Facebook lançou suspeita de ser jejuno em ludopédio.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2016 | 02h00

Não vai negar o óbvio quem já confessou não ser capaz de distinguir um corner de um escanteio, e que, num passado já distante, até produzia consistentes ereções futebolísticas, desde que de 4 em 4 anos, por ocasião da Copa do Mundo. Com o risco de parecer mais antipático do que sou, defendo a ideia de que o desporto bretão ficaria bem mais palatável se aqueles intermináveis 90 minutos fossem desossados no capricho, descartando-se também a pelanca, aqueles momentos em que não acontece grande coisa em campo, de modo a ficar o sumo e nada mais. Não venha me dizer que você, no futebol como no mais, também não prefere os melhores momentos.

Não cheguei a ver o Gui em campo, mas sempre soube que o talento do notável jornalista não era menor quando calçava chuteiras. Nos anos 1970, vivendo eu em Paris, ele passou por lá, egresso de uma temporada como jogador – profissional – em times belgas e suíços. Ou será que só jogou na Bélgica? Em todo caso, era suíça a moça que, em marcação cerrada, foi atrás de seus decantados olhos azuis quando o Gui se instalou num periclitante hotel da Rue Saint-Jacques, no Quartier Latin.

Suíça de língua alemã, me lembro bem, assim como me lembro que entre os dois aparentemente não havia comunicação verbal, ao menos em presença de terceiros, sendo evidente, porém, que em alguma outra linguagem se entendiam à maravilha, visto que viviam grudados como aquele casal da célebre foto de Robert Doisneau em frente ao Hôtel de Ville de Paris. O fato é que nunca vi os lábios da moça se mobilizarem senão para darem passagem à cerveja ou para se grudarem, qual implacável zagueiro, aos do atacante brasileiro.

Sou testemunha ocular e auricular: em público, a criatura não articulava palavra, em que idioma fosse, razão pela qual julguei cabível referir-me a ela como A Calada da Noite, com a alternativa francesa Ça Va Sans Dire, algo como “desnecessário dizer”, usada no caso em tradução literal, “vai sem dizer”. Foi em companhia da Calada da Noite, em circunstância idem, que o Gui traçou e abominou uma coquille saint-jacques comprada numa deli, por falta de saber que a degustação do molusco recém-saído da vitrine refrigerada requeria estágio em forno bem aquecido.

Duas décadas mais tarde, era eu redator-chefe da mais manuseada revista brasileira, sob o comando de Juca Kfouri, quando a Playboy promoveu um evento em que, dessa vez no Brasil, o Gui voltou a brilhar nos gramados. Por iniciativa do repórter Ivan Marsiglia, duas equipes foram escaladas para embates festivos, às vésperas da Copa do Mundo de 1994.

De um lado, gente da casa, como o próprio Ivan, jovem lateral direito, a anos de se tornar autor de A Poeira dos Outros. Do outro, o Dream Team, coletânea de celebridades não necessariamente afeitas ao trato com a bola, cuja estrela máxima era Chico Buarque, fundador e cartola do Politheama. Além dele, foram a campo, entre outros, o editor de Chico, Luiz Schwarcz, o trapalhão Renato Aragão, o ator Osmar Prado, o jornalista Caco Barcellos e até um político, Gustavo Krause – o qual, aliás, naquele ano perderia para Miguel Arraes na disputa pelo governo de Pernambuco. O Dream Team talvez seja, na história do futebol, a solitária equipe a ter tido como técnico um poeta, o concretista Décio Pignatari, a quem não ocorreu adaptar à circunstância um verso de seu Beba Coca-Cola e, em vez de “babe cola”, dizer “babe bola”.

Na primeira partida, o time da revista ganhou por 1 a 0. Na revanche, o mexidão de celebridades retrucou com 4 a 3. Avaliados os dois jogos, o melhor em campo foi o abusado Caco Barcellos, com 3 gols e nota 9 – um ponto a mais que o Chico, autor de 1 gol. Quanto à nossa equipe, a reportagem optou por não lhe dar notas, mas ficou bastante claro que os destaques foram o Guilherme, com duas bolas nas redes adversárias, e o Dinho, futuro jornalista ainda nas funções de office-boy da redação.

Por mim consultado, Juca Kfouri admite que, 22 anos depois, já não se lembra de muita coisa daquelas refregas. Ainda assim, está em condições de afirmar que o desempenho do nosso melhor jogador foi memorável. “O Gui, convenhamos, era uma covardia: bonito, olhos claros, falso tímido, escrevia feito um cão e ainda jogava futebol muito bem”, atesta o Juca – e compara, com a autoridade também de quem foi seu chefe na Playboy e na Placar: “Ele jogava com a mesma elegância de seu texto”.

O texto do Guilherme Cunha Pinto a gente sabe o que é. Se o futebol que ele jogava era do mesmo nível, merecedor seria de Seleção canarinha, não essa aí, é claro, uma daquelas, competentes e briosas, incapazes de perder por 7 a 1 em pleno Mineirão.

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