Bonitinha ganha nova versão para as telas

Moacyr Goes levou quatro semanas para filmar sua adaptação da peça Bonitinha mas Ordinária, de Nelson Rodrigues; o produtor Diler Trindade levou quatro anos para finalizar o filme. Acostumado a produzir rapidamente, e com profissionalismo - os filmes da Xuxa, por exemplo -, ele fez um relato de suas dificuldades no Cine PE. Chegou a tomar dinheiro emprestado, endividando-se além da conta. Leis de patrocínio? As diretorias de marketing das empresas não queriam nem ouvir falar em associar suas marcas ao universo rodriguiano.

AE, Agência Estado

02 de maio de 2013 | 09h52

A dificuldade estimulou a dupla além da conta. Bonitinha é o melhor filme de Goes e um dos melhores de Diler. Antes que você torça o nariz, achando que não significa muito, lembre-se de que Diler produziu também Justiça, de Maria Augusta Ramos, e A Máquina, de João Falcão, ambos ótimos. O próprio Goes, que filmou bastante - como diretor contratado -, finalmente se faz homem de cinema com um filme que, segundo suas palavras, "tem mais a ver com meus demônios".

Importante diretor de teatro, Goes admite que fez Bonitinha para superar sua inveja dos closes. Quando o espectador vê uma peça, o ator está longe, no palco. O cinema permite ao diretor mostrar o olho do intérprete. Cinema, já dizia Nicholas Ray, é a melodia do olhar. Goes segue a lição e se dá bem. Mas o que faz a força do seu filme não é só a mise-en-scène, mas aquilo a que ela serve - a releitura de um clássico da dramaturgia do País. O clássico pode ser eterno, mas se atualiza pelo olho de quem o relê, ou vê.

Goes fez Bonitinha atraído pela crise de valores na sociedade brasileira que a peça expressa. Se isso já era forte quando Nelson escreveu seu texto, tem tudo a ver com o Brasil de hoje - a necessidade de construção da ética. Na trama, Edgar (João Miguel) é forçado a um casamento de conveniência que poderá lhe render um cheque de R$ 5 milhões. "Baixa a cabeça", lhe diz a mãe, enquanto lava seu cabelo. O conselho, quase uma ordem, é para que Edgar deixe de ser o homem ereto que gostaria de ser - inspirado no pai -, submetendo-se ao poder do dinheiro.

A grande sacada do diretor está no deslocamento do eixo dramático. Peixoto, que faz a oferta do casamento para Edgar, costuma ser a representação do canalha. Goes não cede ao estereótipo. Transforma Peixoto num personagem trágico. Isso não apenas cria outra perspectiva como permite que o ator que faz o papel - Leon Goes, irmão do diretor - apresente uma das maiores interpretações do cinema brasileiro. Exagero?

Aguarde para ver Bonitinha. O Festival do Recife, Cine PE, termina nesta quinta-feira (2). Ontem (1º) à noite foi exibido Aos Ventos Que Virão, de Hermano Penna. Até ele, Vendo ou Alugo, de Betse de Paula, e o filme de Goes são os longas mais "premiáveis".

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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