Bonfitto lança estudo sobre a "composição" do ator

Não raro, no teatro, nos deparamoscom atores sem qualquer elaboração vocal ou gestual, em atuaçõestão pretensiosas quanto precárias. Por que ninguém se arrisca aconvidar o público para um concerto de violino, sem antespossuir pelo menos algum domínio do instrumento? Por que, aocontrário, alguns atores imaginam que basta "intuição","talento" ou tudo isso confundido com mera "descontração"para subir ao palco? Existe, afinal, um "repertório" que oator deveria dominar antes de ampliar sua platéia para além deparentes e amigos?No livro O Ator Compositor - que será lançado nestaquarta-feira na Livraria Cultura -, Matto Bonfitto parte de umaquestão semelhante para elaborar uma abrangente pesquisa sobre aarte do ator, publicada agora na coleção Estudos da EditoraPerspectiva. Bonfitto atuou recentemente na elogiada montagem deO Silêncio, espetáculo dirigido por Beth Lopes a partir daadaptação do texto Auto-Acusação, de Peter Handke, retomadona parte final de sua pesquisa.Ator de sólida formação, professor do Departamento deArtes Cênicas da Unicamp, Bonfitto é formado pela Escola de ArteDramática da USP e pela Universidade de Bologna, Itália, ondeteve como mestre, entre outros, Umberto Eco. Na introdução deseu livro, depois de examinar o conceito de "composição" -formar de várias partes, entrar na constituição de, constituir,arranjar, dispor, etc. -, Bonfitto pergunta-se por que essetermo é utilizado em várias formas de arte como música, pintura,arquitetura e até dança, porém raramente no teatro."Quando lemos os programas dos cursos de formação doator não encontramos a disciplina ´composição´. Nada maissensato, então, nos perguntarmos: por quê? Quais seriam osfatores envolvidos, neste caso, que podem ter contribuído para anão utilização de tal conceito no caso da formação do ator? Seráum problema restrito ao teatro chamado ocidental, em que valoresromânticos tais como originalidade, gênio e inspiração aindapermeiam a prática do ator? Ou tal dificuldade teria relação comos problemas ligados à matéria desta forma de arte, ou seja, oaparato psicofísico do ser humano?", indaga Bonfitto naintrodução de sua pesquisa.Advertindo que não tem a pretensão de esgotar o tema,afirma ter como objetivo sistematizar uma reflexão relacionada a"como podemos pensar sobre composição no trabalho do ator". Apartir dessa inquietação, ele "rastreia" diferentesinvestigações sobre o tema ao longo da história. Escapa do óbvioao começar pela análise do trabalho de François Delsarte(1811-1871), que criou um sistema de classificação gestual(gestual no sentido mais amplo, de expressão humana). Nessecapítulo, ressalta que a idéia do "corpo percebido enquantosigno" já estava presente em outros estudos sobre o ator, comoO Paradoxo sobre o Comediante, de Diderot, de 1773, masdestaca o "nível detalhamento" como sendo a maior contribuiçãode Delsarte e serviu de base para estudiosos do futuro, entreeles Constantin Stanislavski em seu método baseado nas açõesfísicas.Composição - Na tentativa de investigar fundamentalmenteo que seriam "os materiais" que entrariam na "composição" daarte do ator, Bonfitto analisa o pensamento de vários teóricosdo teatro, da mímica e da dança especificamente no que elescontribuíram para a arte do intérprete: Stanislavski, Meierhold,Rudof Laban, Antonin Artaud, Étienne Decroux, Bertolt Brecht,Michael Chekov, Jersy Grotovski e Eugenio Barba. E não esquece oteatro oriental, fonte onde beberam Brecht, Artaud e encenadorescontemporâneos igualmente citados no livro como Peter Brook eAriane Mnouchkine.Leitura certamente proveitosa para diretores eintérpretes, a pesquisa de Bonfitto tem, entre outros méritos, ode deixar clara a relação entre as mais diversasinvestigações sobre o tema realizadas através dos tempos. Emboranão seja seu objetivo, desmistifica a idéia do criador solitárioe genial, mostrando o diálogo entre os diferentes criadores de"métodos" de interpretação.Na parte final do estudo, Bonfitto expõe como o"reconhecimento da existência de elementos constitutivos dotrabalho do ator, passíveis de serem utilizados em seu processoexpressivo", pode ser fundamental na interpretação de textoscontemporâneos, como por exemplo o de Peter Handke, onde nãoexiste gênese de personagens ou uma trama definida. Mas,principalmente, esse estudo mostra como o domínio dos elementosque fundam a arte do ator pode ser um forte aliado da intuição edo chamado "talento".O Ator-Compositor. De Matteo Bonfitto. Editora Perspectiva. 176páginas. R$ 20,00. Lançamento amanhã, às 18h30. Livraria Cultura/ConjuntoNacional. Avenida Paulista, 2.073, tel. (11) 3885-8388.

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