Bonecos e atores no palco do Cabaré dos Quase-Vivos

Depois de se apaixonar e casar com uma bela moça, rapaz não suporta as agruras da união vivida sem recursos financeiros e acaba preso, por desacatar um policial. Inconformado com a condenação de 15 anos de prisão, resolve dar cabo da própria vida. Contada assim, a história soa como um dramalhão rasgado. "E realmente não deixa de ser um drama", comenta Luiz André Cherubini, diretor da peça O Cabaré dos Quase-Vivos, que estréia hoje, no Centro Cultural São Paulo. O detalhe está na forma original como o enredo é apresentado. O pobre coitado que não suporta viver atrás das grades por muito tempo é representado por um boneco, assim como sua mulher e os demais personagens da história. Nada surpreendente em se tratando do trabalho de Cherubini e dos outros quatro atores e três músicos que compõem hoje o Grupo Sobrevento, que comemora 20 anos de pesquisa, teórica e prática, da animação de bonecos, formas e objetos. Um trabalho original por utilizar raras formas de manipulação, como marionetes de fio, títeres de varão (forma teatral que teve grande expressão no passado, especialmente em Portugal e na Itália, mas que hoje está quase totalmente abandonada), bonecos de ventríloquo além do Teatro de Brinquedo (figuras bidimensionais de papel), uma especialidade do grupo. Na verdade, O Cabaré dos Quase-Vivos apresenta duas histórias simultâneas, que se cruzam ao longo da apresentação - no início da apresentação, os atores aparecem em um cabaré e propõem à platéia uma noite de diversão e de esquecimento, de prazer e relaxamento. Com o argumento de que é preciso aproveitar a vida, os atores se opõem à dura realidade dos bonecos (são 40, ao todo), os chamados ´quase-vivos´, compondo uma interessante oposição entre real e imaginário. "Os atores do cabaré revelam uma postura superficial, muito menos humana que a dos bonecos", comenta Cherubini. E o efeito é conseguido graças ao belo trabalho realizado com as marionetes. "Fizemos um cuidadoso trabalho de preparação e confecção dos bonecos, sem desprezar detalhes." Assim, os manipulados por fios exibem um movimento que se aproxima do humano, enquanto os bonecos de ventriloquismo mexem a boca no mesmo ângulo que o queixo humano. "Para isso, tiramos fotos digitais que nos ofereceram as medidas corretas", explica Cherubini, que se inspirou livremente no Conto de Ninar, do húngaro Ferenc Molnar, para a história vivida pelos bonecos. O Cabaré dos Quase-Vivos. 90 min. 14 anos. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho (324 lug.).R. Vergueiro, 1.000, Paraíso, 3277-3611, metrô Vergueiro. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 12. Até 7/5. Estréia hoje.

Agencia Estado,

31 de março de 2006 | 15h30

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