Bonecos de todo mundo tomam o palco em SP

São poucos os que ainda associam aexpressão teatro de bonecos a marionetes de um grupo mambembe,protagonistas de espetáculos voltados unicamente para o públicoinfantil. No Brasil, trabalhos de grupos como o paulistano Caixade Imagens, o mineiro Giramundo e os Contadores de Estórias, deParaty, entre outros, já deram mostras da sofisticação delinguagem alcançada nesse gênero teatral.A evolução dessa arte singular fora do Brasil poderá serconferida a partir de amanhã na programação do eventoAnimação em Cena, uma mostra internacional de teatros de bonecos que reúne grupos de países da Europa e América Latina no SescPompéia, de amanhã a domingo. São companhias da Holanda,República Checa, França, Itália, Bélgica, Espanha, Portugal,Argentina e Chile, que trabalham com as mais variadas técnicas -máscaras, teatro de sombras, marionetes, bonecos gigantes oudiminutos - em espetáculos para público de todas as idades.Alguns baseiam-se em histórias conhecidas universalmentecomo Alice no País das Maravilhas ou Pinochio, entre asinfantis, ou Amor de Don Perlimplin com Belisa no Seu Jardim de Federico García Lorca e Molire, criação do australianoNeville Tranter, entre os voltados para o público adulto. Háainda espetáculos de linguagem abstrata como o impressionistaLa Música Pintada, da Espanha.Diversidade - "Além da qualidade artística, nossocritério de seleção orientou-se pela diversidade: de linguagens,de faixa etária do público alvo, de técnicas de manipulação e dedramaturgia. Também privilegiamos grupos com larga experiência ereputação internacional. O Theatre Taptoe, da Bélgica, porexemplo, tem 30 anos de existência e o Stuffed Puppet Theatre,da Holanda, foi criado há 25 anos", argumenta a curadoraBerenice Farina da Rosa. "Nossa intenção, ao organizar umamostra como essa, é contribuir para mudar o paradigma que aindaexiste em torno do teatro de boneco, uma arte que hoje nadaperde em comparação com o teatro tradicional."O trabalho do australiano radicado na Holanda NevilleTranter, fundador da companhia Stuffed Puppet Theatre - que abrea programação adulta amanhã à noite - é um bom exemplo daspossibilidades dramáticas desse gênero de teatro. Ele esteve noBrasil pela primeira vez em 1998 para integrar a mostra oficialdo Festival Internacional de Londrina (Filo), onde apresentouMacbeth, de Shakespeare. Num evento de teatro"tradicional", Neville surpreendeu pela qualidade de seuespetáculo.Tragédia - Na sua montagem da mais sangrenta tragédia deShakespeare, ele interpretou Macbeth e ao mesmo tempomanipulou bonecos gigantes - os demais personagens -, para osquais emprestou movimento e voz. Na forma de bonecos, subiram aopalco Lady Macbeth, as bruxas que prevêem a ascensão de Macbethao trono, Banquo, o rei Duncan e Macduff. Sozinho em cena, mesmomanipulando tantos bonecos, Neville em nenhum momento perdeu alinha do personagem, conseguindo interpretar de forma brilhantea transformação do hesitante Macbeth em um assassinotranstornado pela ambição.Desta vez, ele traz ao Brasil Molière, um espetáculoinspirado na vida e obra do dramaturgo francês, autor deobras-primas como Tartufo e D. Juan. Da Holanda, Tranter faloupor telefone. "Trata-se de uma comédia, com alguns momentostrágicos. O espetáculo gira em torno de Molière, não só odramaturgo, mas também o ator e diretor de uma companhiateatral", explicou. Ele, Tranter, desta vez faz um servo deMolière - que criou, em seus textos, grandes personagens nogênero, como o Sganarello, criado de D. Juan.Rap - Todos os outros personagens do espetáculo têm aforma de bonecos, até mesmo Molière e sua mulher Amanda. "O ReiLuís XIV faz uma única aparição em cena, mas ela dura noveminutos e ele canta um rap", antecipa. Um rap? "Nessa peça eleé um rei muito moderno", brinca o ator. Em cena ainda um doutor- "um personagem importante, porque é o alter ego de Molière"- e dois funcionários do rei, os responsáveis pelo controle dodinheiro. "O tema principal da peça é a relação entre Molière eo rei, na verdade, a dependência entre o artista e o poder, umproblema não só de Molière, mas uma questão atual e universalenvolvendo a criação artística."O grupo Divadlo Drak, da República Checa, abre aprogramação infantil amanhã, às 14 horas, com BebêsVoadores, recomendado para criança a partir dos 3 anos deidade. O ponto de partida do espetáculo é uma situaçãocertamente já vivida por muitas crianças. Um balão de gás quelhes escapa das mãos. No mundo mágico do teatro, as lágrimas sãosubstituídas pela aventura e, nas asas da imaginação, público epersonagens voam para o planeta dos balões perdidos.Recomendado para espectadores a partir dos 12 anos, acompanhia francesa Theatre 4 Vents apresenta, na área deconvivência do Sesc Pompéia, o único espetáculo grátis do evento, Blablá. "Embora nosso espetáculo não seja exatamentedestinado a crianças, estamos felizes em saber que nosapresentaremos num espaço acessível a todos", comentou, poucashoras antes de partir para o Brasil, o diretor Philip Ségura."Com Blablá, nós desejamos realizar uma crítica sobre arelação marionete e marionetista."Vaidade - Seus bonecos são cabeças de marionetes emconflito com o egoísmo e a vaidade do artista. A partir daí, ogrupo explora questões universais da arte, como os limites dalinguagem e a substituição do pensamento pela imagem.Metaforicamente, a marionete do "homem pensamento" morre e,durante o seu funeral, o artista ri dos protestos dasmarionetes. Um artista que acaba sendo substituído pelo seuauto-retrato numa verdadeira guerra entre artista/manipulador emarionetes/manipuladas.O relação ator/boneco, desta vez muito mais carinhosa, étema central da conhecida história infantil do boneco de madeiracriado pelo marceneiro Gepetto. Um boneco cujo sonho é sergente. Pinocho, o espetáculo do grupo argentino Libertablas,recomendado para crianças a partir dos 3 anos, foi criado em1997 e já foi visto por mais de 300 mil espectadores. Issoporque o a companhia trabalha, na Argentina, apresentandoespetáculos nas escolas. "Cumprimos nossa missão de contribuirpara formação cultural."A programação da mostra é vasta e promete qualidade, comatrações para todas as faixas etárias. Mas não só o públicosairá ganhando. Também os artistas brasileiros, pois há umaprogramação paralela de oficina e palestras, com a participaçãodos artistas internacionais e também de brasileiros como AnaMaria Amaral, reconhecida especialista nesse gênero teatral.

Agencia Estado,

27 de agosto de 2001 | 17h06

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