"Bonde" faz do público testemunha da violência

Depois de atingir o alvo com uma das melhores montagens da última temporada, a rodriguiana Toda Nudez Será Castigada, a encenadora Cibele Forjaz repete a dose com a williamsiana Um Bonde Chamado Desejo, em cartaz no Sesc Belenzinho. Ao levar para a cena o lendário drama do norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), Cibele recupera uma série de procedimentos que empregou na tragédia de Nelson Rodrigues. Coloca o público no palco, bem próximo dos atores. Reduz o cenário a alguns móveis e acessórios. Atribui aos figurinos a função de representarem a época em que a história se passa, a década de 1940. A New Orleans deste Bonde, assim como o Rio de Toda Nudez pode ser, e é, qualquer cidade em qualquer país, diz Cibele Forjaz em seu trabalho. Não importa a metrópole, mas o drama humano que ela abarca.Escrita em 1946 e encenada na Broadway em 1947, Bonde põe em foco a atormentada Blanche DuBois. Forçada por um escândalo a deixar Laurel, sua cidade natal, ela não tem outro lugar para ir, exceto a casa da irmã, Stella, que vive em um minúsculo apartamento de um bairro pobre de New Orleans. Refinado produto de família aristocrática do sul dos EUA, Blanche, que se prostituiu para viver depois de perder o emprego e o jovem esposo suicida, haverá de entrar em choque com o marido de Stella, Stanley Kowalsky, vigoroso e autoritário filho de poloneses. A afetuosa Stella, grávida, ver-se-á no centro do campo de batalha, e como todos os envolvidos, será profundamente abalada pelo embate.A peça de Williams está datada. As questões morais nas quais se ancora perderam em grande medida a validade. Velhas leis centenárias caducaram nas últimas décadas, em especial desde os libertários anos 60. Hoje o drama de Blanche soa anacrônico. Mas Um Bonde Chamado Desejo continua a ser um grande texto. Por seu intenso lirismo e pela complexidade dos personagens, em primeiro lugar. E também pela capacidade de fazer da luta Stanley X Blanche uma metáfora do mundo. Este, tal como o conhecemos, era considerado por Williams uma arena de combates brutais e horripilantes.Cibele Forjaz e a cenógrafa e figurinista Simone Mina criaram no centro do amplo palco do Sesc Belenzinho uma espécie de gaiola delimitada por fitas elásticas brancas, e ali situaram o drama. O espetáculo é belo, fluente, permeado de um clima de sonho e melancolia acentuado pela música de Cacá Machado e pela luz de Alessandra Domingues, que dialoga com o realismo, mas não se limita a ele.Essa excelente montagem de Um Bonde Chamado Desejo revela-nos as grandezas da fascinante peça. Cibele tratou o texto de Williams com reverência. Sua direção sublinhou a intensidade da obra, o elaborado retrato de personagens solitários e perdidos, a linguagem é melódica, realçada pela esmerada tradução de Vadim Nikitin.Mas Um Bonde mostra-se também redundante. Há nele uma espécie de obsessão de Williams na busca da prosa literária, da narrativa contituída por altos vôos, como a de seu conterrâneo Eugene O´Neill. Por causa disso, as discussões alongam-se além do necessário, a obra tarda a chegar ao seu destino. Apesar disso, a imagem da mulher frágil esmagada pelo homem truculento, que não a compreende, impõe-se pela eficácia. E o autor faz um apelo à convivência dos opostos que soa agora, mais que nunca, oportuno. E urgente.Uma criação com tais características tem de ser defendida por um elenco forte. E esse é o caso do cast central da montagem de Cibele Forjaz. Leona Cavalli está luminosa como Blanche. Bela e jovem demais para o papel, supera esses "limites" físicos com uma percepção notável e um mergulho apaixonado para o interior de Blanche. Atriz superlativa, Leona arrasta consigo o espectador desde sua primeira aparição, toda de branco, carregando uma pesada mala, em busca da casa de Stella.Esta é vivida por Isabel Teixeira, em outra excelente atuação. Expressiva, firme e suave, a atriz faz de Stella uma testemunha perplexa da luta do marido com a irmã, pressentindo que o choque vai danificar irreparavelmente seu pequeno mundo doméstico e machista, dominado por Kowalski. Esse é o papel de Milhem Cortaz. Sempre um ator extrovertido, visceral, Cortaz confere ao seu Kowalski uma linha surpreendente. A atuação é contida, evita as explosões nos momentos mais evidentes, tinge-se de meios-tons, de nuances. Um trabalho rico em filigranas, que remete, guardadas todas as proporções, ao mitológico Marlon Brando, que foi revelado ao criar o brutal polonês, na estréia americana, em 1947.O elenco de apoio de Bonde não atinge o mesmo rendimento. João Signorelli fica longe de dar credibilidade a Mitch, amigo de Stanley que cortejará Blanche por breve tempo. Cria uma máscara de bondade que se esgota em si mesma. Outros pequenos papéis são mal aproveitados. Peterson Negreiros, operador de som, não tem como ator a desenvoltura necessária para fazer a cena em que Blanche seduz um garoto entregador do Correio. Dora Carvalho e Eudes Figueiredo, que fazem o casal Hubbel, vizinho dos Kowalskis, também deixam evidentes suas limitações como intérpretes.Os tropeços do texto de Williams e de parte do elenco não diminuem o acerto geral do espetáculo. Um Bonde Chamado Desejo confirma o importante papel que a diretora Cibele Forjaz está desempenhando no teatro brasileiro contemporâneo. E representa mais um grande passo na carreira de Leona Cavalli, trajeto repleto de desafios que o talento da atriz vem transformando em indiscutíveis triunfos.Um Bonde Chamado Desejo. De Tennessee Williams. Direção Cibele Forjaz. Duração: 150 minutos. De sexta a domingo, às 20 horas. R$ 12,00 (sexta) e R$ 20,00. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, tel. 6605-8143. Até 28/4.

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