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Bombas lindas

É um triste argumento para quem perdeu a confiança no jornalismo

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2017 | 02h00

Quis a ironia que o Dia do Jornalista no Brasil, 7 de abril, coincidisse com o dia de alerta mundial para a depressão, designado pela Organização Mundial de Saúde. Nada mais triste do que um jornalista veterano, hoje destacado âncora de TV a cabo, emitindo as seguintes palavras, durante o ataque americano à base aérea Síria: “Sou guiado pela beleza das nossas bombas”. O âncora Brian Williams, rebaixado da TV aberta por ter mentido sobre suas experiências de guerra, citava, sem o menor senso de ironia, uma letra do recém-falecido músico canadense Leonard Cohen.

Na manhã seguinte, foi a vez de outro veterano, conhecido por suas colunas temperadas sobre política externa e não por euforia: “Acho que Trump se tornou presidente na noite passada”, disse, na CNN, o jornalista criado na elite de Mumbai Fareed Zakaria.

Já vimos este filme antes, em 2002. O New York Times, um jornal que defenestrou sua repórter estrela Judith Miller e fez um doloroso mea culpa sobre ter se tornado conduto de falsidades usadas para justificar a invasão do Iraque, saiu com a seguinte manchete na sexta-feira: “No Ataque à Síria, o Coração de Trump Falou Mais Alto”.

A diferença, quinze anos depois, é que o ritmo estonteante de marchas e contramarchas desta presidência criou um clima de Síndrome de Estocolmo, em que qualquer decisão mais convencional, como retaliar contra um horrendo ataque de gás sarin, faz com que a mídia corra para decretar, ele se tornou presidencial!

Despejar 59 mísseis numa base que, horas depois, estava plenamente operacional e despachando aviões para bombardear a mesma província que foi alvo do ataque químico pode ser um momento tático, mas está longe de ser uma estratégia. É um impulso que corteja a audiência doméstica, chocada com o drama das imagens continuamente repetidas e atende o desejo humano de fazer alguma coisa.

O ataque químico da semana passada matou muito menos do que o ataque a Ghouta, de agosto de 2013, em que a estimativa de vítima fatais varia de centenas a 1700. O presidente tinha o mesmo coração então e disse a Barack Obama para nem pensar em atacar. Depois de um domingo em que dois porta-vozes da política externa dos EUA se contradisseram - a embaixadora na ONU dizendo que Assad tem que ir embora, o Secretário de Estado garantindo que nada mudou desde a semana anterior -, não há sinal de que o bombardeio light da base síria foi o primeiro passo de uma estratégia. 

Mais de 90% das vítimas do pior genocídio desde a Segunda Guerra Mundial foram mortas por Bashar al Assad, não por rebeldes ou pelo Estado Islâmico e com armas convencionais. “Convencionais” como a não banida bomba de barril, um artefato improvisado que usa fragmentos e produtos químicos. Como lembrou o jornalista Paul Waldman, no Washington Post, você e eu não vimos close-ups das crianças vítimas das bombas de barril nos últimos seis anos porque seus corpos foram despedaçados. Os corpos das vítimas do gás sarin aparecem intactos.

O irritadiço crítico de mídia Jack Shaffer resumiu: “Para a TV a cabo, guerra não é notícia, é programação”. O desfile do comentariado civil e militar exultando sem uma gota de contexto com o ataque sobre o qual os sírios foram evidentemente alertados é um triste argumento para quem perdeu a confiança no jornalismo.

A reportagem de capa da revista do New York Times no domingo ajuda a explicar o desserviço potencial da mídia no momento mais perigoso que o mundo enfrenta desde o fim da Guerra Fria. Um perfil do presidente da CNN, Jeff Zucker, a quem devemos, na passagem pela rede NBC, a invenção de Trump como celebridade de reality show, continha a seguinte reflexão: “Eles são personagens num drama”. Zucker explicou assim o fato de manter no ar um punhado de figuras histriônicas de ultradireita como comentaristas. Ou seja, a notícia deve ser servida como entretenimento narrativo empacotado. E assim temos a praga da falsa equivalência, seja na TV a cabo norte-americana ou na Hebraica do Rio de Janeiro, quando se confunde neutralidade moral com objetividade.

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