Bomba de violência

Selvagens, de Oliver Stone, será exibido amanhã no Rio e estreia no País no dia 5

ELAINE GUERINI , ESPECIAL PARA O ESTADO , LOS ANGELES , O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h09

Oliver Stone descobriu a maconha "antes mesmo de vivenciar os horrores da guerra'', ao servir no Vietnã, em 1967, aos 20 anos. É um "hábito de quase 50 anos''. "Passei muito tempo da minha vida chapado. Visitei a Jamaica, na década de 70, mas não consigo me lembrar de nada'', contou, rindo, numa sala do hotel Four Seasons de Beverly Hills, onde recebeu a reportagem do Estado. "Sem conhecimento de causa, como poderia ter feito filmes como The Doors (1991) ou Assassinos por Natureza (1994)?", disse o diretor de 65 anos, hoje "muito mais ajuizado'', como insistiu em dizer. "Não sou viciado. Fumo só de vez em quando.''

O que talvez seja inédito na carreira do cineasta é a manifestação pública que vem fazendo pela descriminalização e legalização da maconha nos EUA. Ele posou fumando um baseado gigante para a capa de agosto da revista nova-iorquina High Times. O vencedor de dois Oscars de diretor - Platoon (1986) e Nascido em 4 de Julho (1989) - também foi a vários talk shows apoiando a liberação do uso da maconha. "É uma planta que ajuda com a dor e o equilíbrio emocional. Foi o que me salvou na loucura do Vietnã. "

A campanha coincidiu com o lançamento de Selvagens, o último longa de Stone. Depois de estrear em 6 de julho nos EUA (arrecadou mais de US$ 47 milhões), será apresentando amanhã e terça no Festival do Rio (27/9 a 11/10) e estreia no País dia 5.

Inspirado no livro Savages, de Don Winslow, o thriller expõe a barbárie no submundo do tráfico de drogas. Quando dois produtores de maconha californianos (Taylor Kitsch e Aaron Johnson) ameaçam o lucro de cartel do México, a líder da organização (Salma Hayek) manda sequestrar a namorada (Blake Lively) dos rapazes - sim, eles formam um triângulo amoroso apimentado. Esse é ponto de partida para violência perturbadora, explosões e tensão constante no filme de ritmo alucinante, que traz em sua trilha canções emblemáticas, como Legalize It, de Peter Tosh.

"É a proibição do uso da maconha que cria esse sistema de gângster, que corrompe ainda mais a sociedade'', afirmou Stone, que foi preso três vezes. A primeira delas em 1968, quando tentou voltar aos EUA com cerca de 60 gramas da erva do México. Houve mais dois episódios, em 1999 e 2005, em LA, por posse de maconha. "Nos EUA, temos regras cruéis que jogam na cadeia os usuários de drogas, sem que eles tenham vitimizado ninguém. É um absurdo bani-los da sociedade e destruir suas vidas. Isso só inflama mais nossas penitenciárias.''

Declarar guerra às drogas, nos EUA ou em qualquer outro país, é o que Stone chama de "medida desnecessária e desastrosa''. "Infelizmente, os americanos adoram o conceito de guerra. É por isso que já nos metemos em guerras demais, como a do Vietnã, Afeganistão e Iraque. Por que não podemos negociar ?'', disse Stone, vencedor do Oscar de roteiro por O Expresso da Meia-Noite (1978), sobre jovem condenado à prisão perpétua ao ser pego com dois quilos de haxixe na Turquia. Antes de encerrar a entrevista, o cineasta elogiou a política da Holanda e de Portugal, onde o uso da maconha é descriminalizado. "São democracias admiráveis que dão prova de sanidade."

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