Flávio Morbach Portella/Divulgação
Flávio Morbach Portella/Divulgação

'Bom Retiro 958 Metros' marca o renascimento do Vertigem

Grupo completa 20 anos de trajetória após séria crise com o espetáculo 'BR-3'

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2012 | 20h00

Para o Teatro da Vertigem, a estreia de Bom Retiro 958 Metros não marca apenas um novo trabalho. Ou só sinaliza as comemorações pelos 20 anos do grupo. Também adquire certo sentido de renascimento. Uma reafirmação de força, após a crise que atingiu a companhia em 2008. “Houve um momento ali em que parecia que era o fim. O grupo esteve no limite de acabar. Foi um trauma”, conta Antonio Araujo, relembrando os percalços sofridos com o espetáculo BR-3

Grandioso, como costumam ser os projetos do Tetro da Vertigem, BR-3 propunha a encenação em pleno leito do Rio Tietê. Afora as dificuldades técnicas, a montagem enfrentou um penoso revés depois que já estava em cartaz: o preço do aluguel dos barcos utilizados na peça triplicou. Para fechar as contas, o grupo se afundou em dívidas. Mas nem assim conseguiu levar a proposta muito adiante. “Além de terminar devendo muito, a gente também só conseguiu ficar três meses em cartaz. Nossas temporadas costumam ser longas. Mas, naquele caso, tivemos que abortar o trabalho.”

A volta por cima foi dada aos poucos. Nesse meio-tempo, o grupo se exercitou em História de Amor, montagem de um texto de Jean-Luc Lagarce. “De certa forma, aquilo nos reagrupou”, comenta Araujo. Mais adiante, o Vertigem buscou amparo em Kafka e criou Kastelo, dessa vez sob direção de Eliana Monteiro. 

A concepção de Bom Retiro 958 Metros teve início em 2010. A exemplo de obras anteriores, o processo de pesquisa incluiu seminários com especialistas e estudiosos, longas investigações, além de uma dramaturgia burilada em improvisos e workshops. 

A ideia de debruçar-se sobre o bairro da região central de São Paulo, lembra o diretor, tem relação com questões candentes daquele espaço: a imigração, o multiculturalismo desses diferentes fluxos migratórios, as relações de trabalho, o consumo intenso. “Mas havia também um vínculo afetivo, anterior a tudo isso.” O interesse no Bom Retiro como tema já rondava o grupo havia muito tempo. “Durante mais de um ano ensaiamos o Apocalipse 1,11 no Bom Retiro. E você não fica impune a isso. Essa relação com o lugar se criou ali.”

Galeria. Gradativamente, o foco deixou a história do bairro e sua formação para recair sobre a contemporaneidade. Dentro da galeria na qual transcorre parte da peça, o público acompanha a saga de uma mulher (personagem de Luciana Schwinden) em busca de um vestido vermelho. Será durante o périplo para alcançar seu objeto de desejo que ela conduzirá esse enredo e nos levará ao encontro de outras vozes. Uma das mais contundentes é a do mendigo vivido por Roberto Áudio.

Para encontrar uma pedra de crack, ele deixa a galeria e vasculha os interstícios da cidade desolada. É enxotado por quem o encontra. Escala muros e portões tentando aplacar o vício. Seu discurso é um fluxo de alucinações e visagens. Mas também guarda lampejos de consciência. 

A encenação acende os holofotes sobre cruzamentos e vias inóspitas. Coloca uma noiva a perambular pelas marquises de lojas fechadas. Prende personagens dentro de vitrines móveis, que circulam sem rumo. 

A parte final acontece no prédio do Icib, um dos epicentros da cultura judaica em São Paulo, hoje abandonado. Conduzido aos porões desse edifício, o público adentra em um teatro em ruínas. O exato contraponto do espaço resplandecente do shopping center. O retrato atroz de nossa atual escala de valores. 

BOM RETIRO 958 METROS

Local: a partir da Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363). De 5ª a sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 30. Até 30/9. 

20 ANOS DE HISTÓRIA 

Paraíso Perdido 

Espetáculo de 1992 marca a estreia do grupo. Gerou polêmica ao usar a igreja de Santa Ifigênia como palco

O Livro de Jó 

A peça de 1995 era encenada dentro de um hospital desativado e trazia Matheus Nachtergaele em atuação impressionante

Apocalipse 1,11

Em 2000, o grupo apresentava a montagem dentro de um presídio, dando continuidade à proposta de ocupar lugares marcantes da cidade 

BR-3 

O Rio Tietê era o cenário para a encenação, que utilizava dois barcos para transportar atores e público. Peça gerou várias dívidas para o grupo 

Kastelo 

Antonio Araujo se afasta da direção, que é assumida por Eliana Monteiro. Espetáculo de 2009 era encenado do lado de fora de um prédio na Avenida Paulista 

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