Bom de papo, bom de cachorro-quente

Antônio Custódio da Silva, 69 anos, é quase uma lenda na Cidade Universitária, no Butantã. Ele é o dono, há 19 anos, da barraquinha Super Hot Dog, dentro do câmpus, que já conquistou o paladar e a amizade de diversas gerações de estudantes. Hoje, Antônio já está com sua 3ª Kombi e seu 5º carrinho, e conta com a ajuda dos filhos, Gerson e Débora Almeida da Silva, de 30 e 21 anos. Há quem diga que é o melhor cachorro-quente de barraquinha de São Paulo. E deve ser mesmo. Se não pelo lanche, não há como não se deliciar com as histórias que Antônio tem para contar. Sua saga com a barraquinha começou quando perdeu o emprego de metalúrgico que tinha na Ultragaz. Na época, sem muito dinheiro para iniciar um grande negócio e sem perspectivas de outro emprego, Antônio aproveitou a experiência que já havia tido como padeiro, e comprou sua primeira barraquinha. "Comecei fora da USP, e a cada dia descobria que nem sabia fazer cachorro-quente - os clientes foram me ensinando", conta Antônio. "No mesmo ano, fui fazer um pedido para a diretoria da USP deixar eu entrar com o carrinho no câmpus. Eles gostaram da minha conversa e deixaram". Mesmo que antes fosse "bem sem-vergonha" - como ele mesmo define -, o sanduíche de Antônio foi se aprimorando e conquistando sua clientela. "Algumas mudanças foram dicas de freguês, outras eu mesmo passei a fazer, como a batata-palha, o queijo catupiry, e o azeite no vinagrete no lugar do óleo", diz ele, reinvindicando a criação desses acompanhamentos infalíveis em qualquer cachorro-quente atual. Muitos que passam pela USP não conseguem esquecer o sanduíche. Antônio conta que ex-estudantes bolivianos, argentinos e até alemães durante sua estadia no Brasil chegaram a passar pela USP, depois de formados, só para relembrar o cachorro-quente.Com uma jaopnesa, houve um caso parecido: ela esteve hospedada na casa de uma estudante, e se tornou frequesa de Antônio. Voltou para seu país lamentando a perda, e escreveu suas saudades numa carta. "Ela dizia que se tivesse o hot dog da USP lá, seria perfeito", conta. O estudante de letras Alexandre de Oliveira Barbosa, 30 anos, estava em plena sexta-feira de greve no câmpus, papeando com Antônio. "O cachorro-quente é dos melhores que já comi, os ingredientes são todos muito gostosos. Mas fiz uma grande amizade com seu Antônio, e gosto de vir aqui ouvir suas histórias sobre o interior de Minas Gerais", diz Barbosa. Antônio é da cidade de Nepomuceno, e guarda de lá aquele jeito mineiro acolhedor e simpático. Até um João de Barro tomou como hábito as visitas ao Super Hot Dog. Sem medo, o passarinho já sabe que todas as tardes pode se aproximar do carrinho do alegre senhor, e contar com uma carinhosa porção de pão e purê.

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