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Capa[br][br]Adam Haslett, autor de Union Atlantic, considerado o primeiro grande romance do crash de 2008 - embora concluído na semana da quebra do Lehman Brothers -, diz que seu maior tormento é a ''angústia da imaginação''

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Um bardo anônimo no quartel-general financeiro do sul de Manhattan há de murmurar, "T.S. Eliot é o mais profético dos poetas". O abril dos versos de abertura de A Terra Desolada - "o mais cruel dos meses" - pode entrar para a história como o mês amaldiçoado por Wall Street.

No dia 16 de abril, o governo americano acusou o banco Goldman Sachs de fraude e soltou as âncoras do navio fantasma. Com sua fama de invencível e seus segredos financeiros, o banco passou a figurar na imaginação coletiva como o candidato ideal para conferir moral à fábula da ruína econômica enfrentada em escala global com o crash de 2008. Um subcomitê do Senado americano adquiriu tons de reality show esta semana, com os outrora altivos funcionários do Goldman Sachs submetidos à fuzilaria de legisladores que pouco fizeram para impedir a farra da bolha imobiliária.

É mais fácil contar qualquer história com personagens bem delineados. Uma safra de títulos de não ficção tem revelado os protagonistas da crise e pelo menos dois caminham para a tela (leia a respeito na página ao lado). Mas a literatura, muitas vezes, chega depois das manchetes - mesmo que acabe desnudando sua matriz de profecia.

Lançado em fevereiro, o livro recebido como o primeiro importante romance emblemático da crise é também a estreia do autor, de 39 anos, no gênero. O original de Union Atlantic, de Adam Haslett - escritor que estreou como contista, em 2002, com o elogiado You Are Not A Stranger Here -, foi concluído quando o banco Lehman Brothers quebrou, em setembro de 2008. Com ação situada entre 2002 e 2003, é um romance realista sobre um jovem investidor ambicioso, Doug Fanning, que arrisca o destino de um banco, o fictício Union Atlantic, com apostas ousadas e inescrupulosas. A fila para vestir a carapuça é longa, porém Adam Haslett é o primeiro a se distanciar da confusão entre realismo e realidade.

Tímido e magro, o autor de Union Atlantic fala tão baixo que sua voz no gravador foi afogada pela música tocada no café onde nos encontramos, no Brooklyn. Haslett é devoto da prosa de James Baldwin (1924- 1987) - afro-americano, homossexual, ativista de direitos civis, que militou ao lado de Martin Luther King - e concorda com sua ideia de que "todo artista deve vomitar a angústia, a literal e a fantasista". Ele argumenta que a distinção é fundamental. O romantismo da angústia literal tem peso menor, enfatiza. Para Haslett, o desafio maior está na angústia da imaginação - isto é, no processo delicado e árduo de expor o que lhe importa, não o que aconteceu. Na entrevista a seguir, Adam Haslett enfrenta suas angústias, sob a moldura de um novo capítulo da crise de 2008, o ano que, pelo visto, não terminou.

Union Atlantic foi recebido pela crítica americana como o primeiro grande romance da recessão. Esta caracterização o incomoda?

Acho que há duas questões: a primeira é que ele não é sobre a recessão. A história se passa em 2002-2003, depois do 11 de Setembro, e no momento que levou à guerra no Iraque. Então, a manchete fica um tanto comprometida, porque não é exatamente verdadeira. Por acaso, temos no enredo um banco em apuros e o Banco Central na berlinda. O livro lida mais com as condições que nos levaram ao ponto onde nos encontramos. E deixo claro que não me dispus a escrever um romance profético sobre o mercado financeiro. Eu me interesso por personagens. Como romancista, eu especulo sobre a mente das pessoas e algumas, neste caso, são membros da elite financeira. Acabei de escrever o livro na semana do colapso do banco Lehman Brothers. Talvez por isso Union Atlantic tenha sido destacado desta maneira.

Quanto a origem do protagonista Doug Fanning - marcada pela pobreza, pela rejeição - informa sobre o comportamento dele?

Acho que, como todo mundo, ele deseja intimidade. E ele foi privado de intimidade quando criança. Por isso, quando adulto, está constantemente tentando dominar os outros. E, de certa forma, ele é uma figura que representa um tipo de raiva masculina encontrada no meio militar e financeiro, que dominou a vida americana nos últimos 10 anos.

Os americanos projetaram, ao longo da história, uma autoimagem igualitária, em oposição, por exemplo, à Inglaterra, onde há distinção clara de classes. Quando vivemos aqui, a realidade que se apresenta é outra e o seu romance trata disso.

Sim, com certeza. Eu sou metade inglês e cresci aqui na região da Nova Inglaterra. Tive uma consciência mais afiada da distinção de classe. E inseri isto no livro. Eu quero levar o leitor para este lugar onde ele pergunta: qual a versão que estes personagens dão de si mesmos? Como eles justificam seu comportamento? Até a Charlotte, a personagem branca, protestante e liberal, é uma esnobe; despreza o protagonista. Há uma certeza de convicções que não é baseada só em mérito mas em classe. Não quero, no entanto, ser o juiz dos motivos dos personagens.

Com o lançamento de novos livros de não ficção sobre o crash de 2008 e revelações constantes sobre os bastidores da crise, existe uma reação meio surpresa que mostra falta de memória sobre o que aconteceu há muito pouco tempo.

O ciclo de notícias de 24 horas tem importância na medida em que esta mídia não está em cima da história do crash. Há uma diferença entre a memória da mídia e a memória coletiva. Como seria a memória coletiva se não representada pelos fluxos da mídia? Livros, por exemplo, que digerem a realidade com mais calma, formam parte desta memória. Como também as pessoas diretamente afetadas por consequências de certas ações. É claro que a maioria das pessoas não esqueceu o colapso da economia em 2008. Contudo, elas se lembram como foi o colapso do Lehman Brothers? O fato é que as pessoas não tinham grande compreensão desses fatos, desde o começo. Elas entendem que houve o colapso de uma firma de Wall Street mas não muito além disso.

É justo dizer que Union Atlantic faz uma radiografia de um tempo em que há celebração intensa e não questionada do enriquecimento e do sucesso a qualquer preço?

Sim, e isso continua. Ainda é o sentido do "eu americano"; nada aconteceu para mudar a ideologia dominante. Ela considera o sucesso financeiro o maior bem social. É complicado; não sei como é no Brasil, porém as pessoas aqui querem se distanciar de muito do que acontece na cultura porque é um desastre. Há esse medo do outro e a resignação de que a ação coletiva não é mais possível porque o domínio público contém mais gente que não é como você. Então, o dinheiro é glorificado, entretanto é também uma cerca que dá segurança. Se você tem dinheiro, se sente seguro para enfrentar o que acontece. Há a promoção da felicidade de ter dinheiro e a ansiedade de se manter, através do dinheiro, seguro do que está "lá embaixo".

Existem romancistas como Jane Austen que são transparentes na representação do papel do dinheiro. Hoje, embora a ganância esteja em alta, não parece haver franqueza sobre a importância do dinheiro.

Sim. Mas vamos lembrar que Zola e Balzac trataram muito bem disso. Nos Estados Unidos, as pessoas acham mais fácil falar de sexo do que de dinheiro. Esta cultura presta enorme atenção nos ricos, fala do quanto os ricos acumularam. Mas entre os não ricos, o assunto se torna desconfortável, há uma certa vergonha associada ao dinheiro.

Você quer que o seu livro seja considerado uma avaliação moral sobre a história recente?

A minha esperança é que o romance proporcione uma experiência imaginativa e mostre, num cenário, a relação entre vidas individuais e o mundo de sistemas maiores, do poder corporativo. Estamos sempre nos distraindo entre a mulher que atropelou cinco cachorros e a passagem da lei do seguro-saúde; a mídia achata a realidade. Acho que um poder do romance é desacelerar a atenção do leitor. E, quem sabe, perguntar onde estávamos, ciclicamente, como um país, no momento que antecedeu a guerra no Iraque?

Como é Nova York para se lançar um primeiro romance? A cidade, que é tão competitiva, tem lhe tratado bem?

Esta é uma cidade de escritores. Veja, não importa como o seu livro é recebido. Eu tomo o metrô todo dia e vejo as pessoas lendo obras, revistas, jornais. Há essa sensação de se viver numa cultura de leitores. Não temos essa sensação em qualquer parte do país. Por exemplo, fui convidado para fazer três leituras do livro na área de São Francisco e nenhuma no perímetro de Los Angeles. Então, o ato de ler tem peso diferente em outras cidades. Acho que Nova York é amistosa para o escritor.

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