Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Bolero, polêmica e urubus

Confinamento de aves em instalação de Nuno Ramos provoca o público no primeiro dia da 29.ª Bienal

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

A frase "Liberte os urubu" (sic), pichada anteontem, por volta das 18h20, na 29.ª Bienal de São Paulo, numa das esculturas da instalação Bandeira Branca, do artista Nuno Ramos , teve vida curta. O ato da pichação, que desencadeou um grande tumulto na mostra, em seu primeiro dia de abertura para o público, já foi removida, mas, afinal, são os urubus de Nuno Ramos que estão entre as atrações de maior impacto na exposição.

"Não sei a intenção do artista, mas ele poderia mostrar sua indignação com o mundo sem usar os animais", afirmou a administradora Marcia Pimenta, paulistana de 49 anos. "Vou sugerir que o Nuno Ramos fique lá dentro de sua obra na mesma condições dos urubus", continuou Marcia, que não fazia parte dos grupos ambientalistas que ao longo do primeiro dia da mostra se manifestaram contra a obra do artista, instalada no vão central do pavilhão da Bienal. "Os urubus chamam muito a atenção. A Bienal é diferente de tudo o que vivemos", disse ainda a professora Vera Rennó Poglioni, de Jacareí, que, anteontem, visitava pela primeira vez uma edição do evento, no Ibirapuera. Ela estava em grupo de 80 professores e alunos que, por iniciativa própria, organizou uma "excursão" à Bienal.

O artista, que apresenta na mostra essa obra monumental sobre o luto - formada por três esculturas de areia negra e granito, três urubus e caixas de som com ciclos de execução das músicas Bandeira Branca, Carcará e Boi da Cara Preta - diz que a instalação foi pensada para não deixar os urubus exaustos. Nuno diz que "sem os bichos, o lugar do sonho dessa peça não faz sentido". Ele reafirmou ter autorização do Ibama para usar os animais. De qualquer maneira, durante toda a tarde de anteontem, integrantes de ONGs ambientalistas colocavam cartazes e faziam uma manifestação pacífica ao lado da obra de Nuno Ramos. "É uma crueldade. Viremos todos os dias até que a diretoria da Bienal venha falar com a gente", disse o comerciante José Carlos Orlandin, de 57 anos, do grupo Animais da Aldeia.    

 

 

 

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Leveza. Bem de frente para a obra polêmica de Nuno Ramos é leveza que registram as sessões de pessoas dançando bolero no espaço da artista argentina Ana Gallardo com seu trabalho Um Lugar para Viver Quando Somos Velhos. A mexicana Conchita Marvan, de 72 anos, estava anteontem com vestido verde, leque e sorrisos convidando os visitantes da mostra a dançar com ela - e muitos não resistiam à sua simpatia. "Quando somos velhos, devemos viver com alegria e ânimo", afirmou Conchita, que pela primeira vez visita o Brasil. A artista Ana Gallardo a trouxe para integrar a obra.

Por estranho que pareça, o espaço do argentino Roberto Jacoby, tendo agora encobertos os retratos dos candidatos à presidência Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) e nenhuma menção à campanha eleitoral como era o projeto do artista - por decisão da Bienal, acatando instrução do Tribunal Regional Eleitoral - se tornou um lugar inusitado de criação para pessoas que não têm ideia da polêmica que envolveu esse trabalho. "Vi que é um espaço criativo e fiquei interessada em escrever uma carta sobre o sol e o céu", disse a estudante Tabata Sukys, de 22 anos - há uma placa convidando os visitantes a escreverem o que quiserem.

Por outro lado, a engenheira civil Luciana de Mendonça Santos, de 31 anos, que levava sua filha Maria Luisa, de 7 anos, para conhecer a Bienal, também estava "intrigada" com os urubus no prédio, mas interessada em entrar nas muitas salas com vídeos que a 29.ª mostra tem entre as mais de 800 obras de 159 artistas nacionais e estrangeiros. "Tem muita realidade virtual, muita tecnologia, não só arte material", afirmou Luciana.

Se os urubus se tornam chamarizes inevitáveis da 29.ª Bienal, é uma surpresa para o visitante "descobrir", já no fim do percurso da mostra, no terceiro piso do prédio, os três homens que contribuem para que a obra Abajur, de Cildo Meireles, aconteça. O artista criou uma instalação inédita em que um dínamo movimentado pela força humana faz acender e girar grandes cilindros com imagens de céus, mares, gaivotas e uma caravela.

Anteontem, eram os atores Robson Alves, de 34 anos, Paulo Freitas, de 40 anos, e Franco Picciolo, de 37 anos, que fizeram o turno das 13h30 às 19 h para girar o dínamo do trabalho de Cildo Meireles. "A gente ganha muito pouco, mas estou aqui porque preciso", afirmou Paulo. O Abajur se acende e se apaga ao longo do dia - as imagens, assim, têm um encantamento engasgado porque toda sua beleza depende do movimento desconcertante daqueles três homens que o visitante só identifica quando entra na instalação. "Quando não tem ninguém vendo a obra, a gente para descansar", diz Franco. Assim será até o término da 29.ª Bienal, em 12 de dezembro.

 

 

 

 

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