Bolaño e comida para tubarões

A influência literária do escritor chileno Roberto Bolaño não é perceptível apenas no continente americano ou na Europa. Ao admitir que sua sombra pairou sobre a concepção de Mundos Roubados, o neozelandês Lloyd Jones certamente se refere na entrevista acima a livros como Chamadas Telefônicas, que a Companhia da Letras coloca no mercado no dia 3 de fevereiro. No conto que dá título ao livro de Bolaño, um casal separa-se por telefone e se reencontra anos depois. Esse episódio pode ter inspirado o neozelandês a fazer com que a camareira africana conheça num trem o homem que a ajuda em sua longa travessia. No conto de Bolaño, ocorre o contrário. É na plataforma de uma estação ferroviária que a mulher sem nome e depressiva, chamada simplesmente de X, despede-se de B. Essa despedida é afetuosa e desesperada. O homem, sem poder dormir, finalmente sucumbe ao cansaço e sonha com um boneco de neve caminhando pelo deserto.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2012 | 03h00

Esse homem, claro, é B, que vai desaparecendo da vida de X até não representar mais nada para ela. Certo dia, visitado por policiais, sabe que X foi morta. B julga ter visto o assassino em sonhos, até receber do irmão da ex-companheira uma notícia reveladora. No conto de Bolaño, também o narrador não é onisciente, como em Mundos Roubados. Pode-se acreditar tanto na versão dos primeiros narradores como na história contada por Inês no epílogo do livro de Jones. Em ambos os casos, trata-se de ouvir gente sem identidade num mundo em que a verdade foi suplantada pela ficção.

Em certa medida, o próprio Bolaño foi um modelo para a construção da Inês de Mundos Roubados, pois também o chileno conheceu a experiência de vagar pelo mundo em busca de um porto seguro, ele que chegou a ser preso pela ditadura de Pinochet e viveu em países tão diferentes como El Salvador, México e França, até morrer em Barcelona, aos 50 anos.

Lloyd Jones, ao falar dos imigrantes africanos que chegam a Lampedusa, na Itália, evoca quase involuntariamente o boneco de neve do sonho de Bolaño. O escritor diz que eles desembarcam com a aparência de seres humanos e logo se transformam em fantasmas. Os negros, escreve o neozelandês, continuam a descer para o leito do Mediterrâneo para se tornar comida de tubarão. "O mais perto que a Europa vai chegar deles é quando comer o tubarão", conclui. 

CHAMADAS TELEFÔNICAS

Autor: Roberto Bolaño

Tradução: Eduardo Brandão

Editora: Companhia das Letras (216 págs., R$ 39; nas livrarias a partir do dia 3)

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