Bodoque

- O que você está fazendo?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

- Tirando a camisa.

- Olha que a enfermeira não vai gostar...

- Só quero ver se eu ainda sei fazer.

- O quê?

- Isto.

Pfaf.

- Como se chamava isto, no seu tempo?

- Pum sovacal.

- Eu chamava de trombone axilar.

- Trombone? Não tem nada a ver com trombone. Parece pum.

- Eu não podia dizer pum.

- Por que não? Na sua família não davam pum?

- Davam, mas não se falava a respeito.

- Incrível. Uma infância sem pum. Aposto que também não botavam o dedo no nariz. Tiravam meleca com cotonete.

- Dedo no nariz podia, mas não na frente dos outros.

- Como sua mãe chamava tirar meleca do nariz? Limpar o salão?

- O assunto não era abordado na nossa casa.

***

- Bodoque. Você sabia fazer bodoque?

- Acho que...

- Bodoque. Funda. Atiradeira.

- Acho que não.

- Era preciso encontrar uma forquilha perfeita. Depois prendia-se uma ponta de uma tira de borracha numa das pontas da forquilha, enfiava-se uma plaquinha de couro na tira de borracha e prendia-se a outra ponta da tira na outra ponta da forquilha. E estava pronto o bodoque. Nunca mais me esqueci da sensação de ter um bom bodoque feito por mim nas mãos. Quer saber de uma coisa? Nunca mais tive a mesma sensação de poder. Eu já lhe contei que fui um executivo importante, não contei?

- Várias vezes.

- Já comandei 600 empregados. Já tive a vida de mais de mil pessoas na minhas mãos, ou na mão que assinava os cheques. Fui um dos pro-homens da república. Aconselhei presidentes. Podia derrubar presidentes, se quisesse. E no entanto nunca tive um sensação de poder parecida com a de segurar uma forquilha, estender a tira de borracha com uma pedra colocada na plaquinha de couro, soltar a plaquinha e derrubar, não um presidente, mas um passarinho.

- Você matou muito passarinho?

- Matei, mas isso não interessa. O importante é que eu daria tudo, tudo que eu fiz, tudo que eu ganhei na vida, para ter um bom bodoque de novo nas minhas mãos. Para ter o mesmo poder.

- Por que não procuramos uma forquilha perfeita?

- Como?

- Esta tarde, quando nos levarem para passear no jardim.

- Não, não. Você acha que uma forquilha perfeita se encontra assim? Ainda mais de cadeiras de roda? Não, não. Esquece.

- Olha, a enfermeira está vindo. Melhor botar a camisa.

- Vamos recebê-la com um dueto de puns sovacais.

- Você acha?

- Vamos, vamos. Tire a camisa!

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