Bodes, elefantes e sons modernos

Na vanguarda do rock brasileiro, os trabalhos-solo de Guilherme Granado e os seus parceiros do Hurtmold

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

A ética punk, em que a necessidade de expressar-se prevalece sobre a técnica, é a palavra de ordem nas cativantes viagens experimentais do Bodes e Elefantes, nome artístico de Guilherme Granado, que integra a seminal banda de rock instrumental Hurtmold e lança seu novo trabalho-solo, Behold the Ice Goat, amanhã, no Museu da Imagem e Som.

É um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o músico prima pela crueza criativa, sua música bebe de uma fonte complexa, abastecida pelo jazz moderno do pianista Andrew Hill e o vanguardismo do Tortoise. Em uma das faixas do disco, chega a lembrar o compositor erudito Charles Ives e a melodia cíclica que pontua o mar de dissonâncias de The Unanswered Question.

Mas Granado, que se vale de um apanhado de sintetizadores, baterias eletrônicas e instrumentos percussivos, como o vibrafone e a marimba, para tocar e gravar sozinho, dispensa o intelectualismo. "Não tenho formação em nada", disse ao Estado. "Sou punk. Toco porque sou tarado por música."

Seu excelente primeiro disco, Bodes e Elefantes, de 2007, foi feito com a mesma austeridade criativa. Sob camadas de densa instrumentação, traz um pot-pourri de batidas enlameadas, gravadas em quatro canais, sem computador e com uma fita cassete para que soassem sujas.

"Prefiro tocar um instrumento por dez minutos do que fazer um loop com algum software. O computador faz as pessoas ficarem preguiçosas. Editam, reeditam e o som fica como se tivesse passado por um Photoshop musical."

Seu grupo, o Hurtmold, é um dos pioneiros do conceito instrumental que domina as vertentes mais criativas do rock brasileiro de hoje em dia. É também um laboratório de músicos com interessantes trabalhos solos, como o baterista Maurício Takara, do M Takara 3, que lançou no mês passado o ótimo Sobre Todas e Qualquer Coisa, e o guitarrista Mário Cappi, do MDM.

A sonoridade dos três é mutuamente influenciada. Vai do dub ao free jazz em composições vestidas por uma estética austera, que explora timbres eletrônicos em busca de novas combinações. Cappi faz, amanhã, junto ao Bodes, o show de estreia de seu primeiro disco, MDM. Assim como a de Granado, sua música explora mundos sonoros longínquos sem negar as raízes punk.

BODES & ELEFANTES e MDM

MIS. Avenida Europa, 158, Jd. Europa, Amanhã, 21h30. R$ 10

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