Bobajadas

Acabei não me animando a ir ver o jogo na casa da Nísia e do Otávio, em Belo Horizonte. Com isso, acabei também perdendo a chance de ser apresentado ao rizot od sparoga, ao Cepapcici e ao pita od kupina. Deixei recado para a Nísia, e se ela me ligar até o final da crônica, ficaremos sabendo o que vem a ser esse cardápio que me soa a sopa de letras.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2014 | 02h08

Está achando esquisita esta conversa? Se você me leu na semana passada, talvez se lembre de que a minha criativa cunhada mantém desde 1986 a tradição de cozinhar um prato do adversário toda vez que o Brasil joga numa Copa do Mundo. Qual terá sido, afinal, o cardápio escolhido para o almoço deste dia em que enfrentamos a Croácia?

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Com o devido respeito a nossos irmãos daquele simpático país, essa palavra, croata, cai em meus ouvidos como bizarria. Esqueça o que está no dicionário e faça como o poeta e grandíssima figura Hélio Pellegrino, que se comprazia em buscar, a partir dos sons, novos significados para as palavras. Achava, por exemplo, que "sinecura", em vez de emprego ou cargo rendoso que exige pouco trabalho, como está no Houaiss, deveria designar um canto de sacristia. "Almoçar" não seria verbo, mas substantivo, nome de um móvel baixo, espécie de aparador, nas residências árabes. Os almoçares. O que diria o Hélio de "croata"? Adjetivo, com certeza, e não dos mais lisonjeiros, quem sabe aparentado com o quase homófono "encruado". Aquele camarada anda muito croata. Mas convém parar com esse papo. Se ganharmos o jogo, vai parecer que estou tripudiando; se perdermos, irão dizer que fiquei ressentido. Só não consigo sopitar a curiosidade: será que o rango da Nísia resultou croata?

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Ponha essa bobajada na conta do humor um tanto nublado de quem, à beira da estreia do Brasil, em vez de calçar as havaianas e abrir uma cerveja, aqui está às voltas com as chatices e penares da escreveção de que tira seu sustento. Minha circunstancial distância da televisão corre o risco de ser confundida com o mau hálito existencial dessa turma que decidiu torcer contra. Não é o meu caso. Não vejo como a frustração de não botar a mão na taça ajudaria a melhorar as coisas. Também isso é bobajada, e maior que qualquer outra.

Devo confessar, porém, que já pensei assim. Na Copa de 74, vivendo na França, participei de interminável assembleia de brasileiros convocados para discutir se torcer por nossa Seleção tricampeã do mundo, quando havia no Brasil uma ditadura militar, seria ou não um grave desvio ideológico. Lá fora, ardia um esplêndido verão parisiense - e nós ali, enredados numa discussão decisiva para os destinos da nacionalidade. No fim, alguém produziu esta joia do pensamento liberal: que cada um de nós consultasse a sua consciência. A qual nos liberou para torcer pelo Brasil - que nem por isso foi além de um 4.º lugar.

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Certamente fiz melhor papel na Copa de 50, da qual não me lembro mas que acompanhei, quem sabe, pelo rádio, no colo do meu pai. Da seguinte, disputada na Suíça, guardei a lembrança da narração em brasa de um locutor que, entre os chiados e vazios de uma precária transmissão em ondas curtas, denunciava o massacre físico de que eram vítimas nossos artistas da bola, sob o olhar complacente de um juiz evidentemente comprado para dar a vitória ao adversário. O tom só baixava para informar que mais um do outro time estava saindo de maca rumo à enfermaria.

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Vou poupar você de minhas memórias das Copas seguintes, como a da Suécia, em 58, cuja final, aqueles 5 a 2 sobre os donos da casa, rendeu gravação integral num LP que meu irmão Otávio ouviu até furar. Seja dito apenas, já que toquei no assunto, que não me lembro de qualquer comida de Copa do Mundo. Ainda não estava na área a cunhada Nísia - que, por sinal, acaba de informar que rizot od sparoga vem a ser risoto com aspargos, cepavicici, um bolo de carnes variadas, e pita od kupina, uma torta de blackberry. Tudo muito bom, avalia ela, já matutando o que botar na mesa nos próximos jogos do Brasil, contra Camarões e México.

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