Boatarias, baixarias e bruxarias

Então esta seria uma eleição "madura", com "três candidatos que não fariam feio em lugar nenhum do mundo", e o segundo turno permitiria "uma discussão mais aprofundada" dos problemas nacionais? E aqueles, como eu, que punham isso em dúvida, indignados com a falta de ideias novas, não passavam de pessimistas? Bem, agora que estamos na última semana, acho que nenhum otimista manteve o sorriso. Uma eleição que só muda de curso por causa de um cisma de evangélicos, que não tem nenhum debate de TV digno do nome, que consagra os tiriricas e os oportunistas, que termina com cenas lamentáveis de agressão aos candidatos, que é feita com panfletos caluniosos e sigilos violados - uma eleição dessas, pautada pela baixaria e boataria, não deixa a democracia feliz.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Os comentaristas políticos estão piores do que os esportivos: acham que sua função é torcer para um lado, o petista ou o serrista, e alguns têm até blogs patrocinados para tanto. Pela internet, aliás, só circula ataque grosseiro e acusação leviana - ou então gente se vangloriando de estatísticas que antes repudiariam, à maneira do presidente. Artistas que se dizem de "esquerda" aplaudem a política externa do governo, esquecendo que sua popularidade vem da política econômica herdada e esquecendo que antes juravam que seu partido era contra a corrupção. Articulistas que não reconhecem ser de "direita" acham que pessoas sem religião são porta-vozes do apocalipse e exaltam José Serra e sua mulher por atacarem a opinião de Dilma Rousseff no tema.

Em consequência, temas fundamentais mal são abordados, como o conteúdo da educação e a carência de saneamento, e nem mesmo os temas urgentes. O principal destes está na própria política econômica. Em nenhum momento vi Dilma ou Serra falar com propriedade sobre desafios como a guerra cambial, que está desvalorizando o dólar, acelerando as importações e restringindo o Brasil a um exportador de commodities, cujos preços não tendem mais a subir. Ambos falam em reduzir juros e impostos como se isso não envolvesse reformas sérias e cortes de gastos para melhorar o ambiente produtivo; para eles, basta taxar transações financeiras ou controlar o câmbio flutuante, como num feitiço. As bruxas estão soltas, e a votação no dia do Halloween vem muito a calhar.

Uma lágrima (1). O trabalho de José Ângelo Gaiarsa, morto no sábado retrasado aos 90 anos, sempre foi controverso, mas tenho por ele gratidão, que infelizmente nunca exprimi em público devidamente. Gaiarsa era um psiquiatra reichiano; foi nele que li pela primeira vez sobre Wilhelm Reich, máquina de orgasmo, etc. Reich está fora de moda, mas durante a contracultura era celebrado por sua visão libertária do corpo, o qual todos tendemos a aprisionar. Lendo Gaiarsa nos anos 80, aprendi a prestar atenção nas informações que esse corpo emite para resistir à repressão de seus impulsos, como na respiração, e a entender que por trás de tabus como a masturbação estava o autoconhecimento. Em seus livros sobre sexo, encontramos grandes dicas detalhadas de como prolongar o prazer, controlar a ansiedade, variar o ritmo, etc. Tudo que os pais e irmãos não ensinavam.

Lembro de outro livro, O Espelho Mágico, em que contestou a noção de que uma pessoa não deve ser curiosa sobre a própria aparência, como se a vaidade fosse um pecado e nada mais, como se não existisse uma linguagem não-verbal. Ele também aparecia em programas de TV, sempre muito claro, sempre contrário à conversão de instintos em instituições, ao papo conservador sobre "lar estruturado"; para ele, não fazia sentido que o casamento desse o direito a uma pessoa de impor à outra uma vida sexual pobre. Foi adepto de relações abertas, em que disse que as mulheres levavam vantagem. Mais tarde, reconheceu a força biológica dos ciúmes e os ganhos inclusive eróticos da estabilidade. Sua voz faz falta numa época em que os afetos voltaram tanto a se confundir com interesses.

Uma lágrima (2). Foi graças a Ruy Castro que ouvi falar pela primeira vez em Jonas Silva, morto no domingo passado aos 82 anos. Mais tarde, conheci a figura, levada à redação por Luís Antônio Giron. Jonas era o crooner do conjunto Garotos da Lua que foi substituído por João Gilberto. Ironicamente, a substituição foi porque Jonas cantava "baixinho demais". A essa altura, João, contrariando a descrição usual de que tem um "fio de voz", soltava as notas como um discípulo de Orlando Silva, se bem que este - como Bing Crosby nos EUA - já era bem mais suave e sutil do que a escola dó-de-peito da velha guarda. Foi só alguns anos mais tarde que João, como Jonas, começou a cantar de modo contido, quase falado, burilando cada extensão de nota como se soasse a coisa mais natural do mundo. Jonas não tinha esse talento de João, mas gravações suas como a de Pra Que Discutir com Madame? podem ser confundidas com a do sucessor. Mas no Brasil, se não fosse por pessoas como Ruy Castro, morreria completamente esquecido.

Rodapé. É uma beleza a Fotobiografia Eça de Queiroz, de Campos Matos (editora Leya), um volume grande em capa dura. Ao contrário do que ocorre na maioria dos livros do gênero, não apenas as imagens são muito boas, mas também os textos, que incluem miniperfis de contemporâneos (como Machado de Assis, que criticou com algum moralismo a influência de Zola no Eça de O Crime do Padre Amaro, mas que se admiravam mutuamente) e trechos de cartas. Eça foi muito fotografado - e desenhado, pintado e esculpido - e o livro traz fotos menos manjadas, como as dele em família, brincando com os filhos, sem a pose habitual do escritor-cercado-de-livros (não que eu não tenha examinado em detalhes as imagens de seu escritório). Ele também viajou muito, morou em Londres e Paris e de lá escreveu excelente material jornalístico. A fotobiografia, assim, cumpre seu papel ao estimular o leitor a ler ou reler seus textos, sua prosa tão rica e fluente, tão local e cosmopolita ao mesmo tempo.

Zapping. A TV brasileira teve duas estreias interessantes nesta semana. A mais importante foi no domingo passado, na HBO: o primeiro capítulo da série dirigida por Martin Scorsese, Boardwalk Empire, traduzida como O Império do Contrabando, que se passa na Atlantic City dos anos de Lei Seca. Vemos as consequências da proibição nos mais diversos meandros: na política, com a vitória dos hipócritas; na economia, com a expansão da Máfia; no cotidiano, com a vazão de outros vícios. Os atores são ótimos, como Steve Buscemi, que faz o protagonista Nuck Thompson, e é bom confirmar que Scorsese agora está interessado na violência menos em si mesma do que em suas implicações.

A outra série que estreou foi As Cariocas, de Daniel Filho, baseada nas histórias de Sergio Porto (Stanislaw Ponte Preta), na TV Globo. Tem o mesmo clima daquelas adaptações dos contos de Nelson Rodrigues em A Vida como Ela É, mas obviamente sem a obsessão moral e o brilho verbal do "anjo pornográfico". O ganho é em sensualidade, que Alinne Moraes esbanjou no primeiro episódio, em que fez uma noiva de um paralítico que tem casos com um garotão surfista e um coroa casado, como num elogio à capacidade feminina de assumir papéis. Sim, há vida criativa na janela eletrônica.

Por que não me ufano. Fiz um relato das dificuldades de tocar uma reforma com um mínimo de planejamento, e desde então não paro de receber outros, inclusive de engenheiros dizendo que o mesmo vale para obras de porte, com número incompreensível de erros, descuidos e atrasos. As agruras continuam e, repito, estou falando de empresas de renome, privadas ou estatais. À Net, por exemplo, pedi transferência de endereço e mais dois pontos, mas me disseram que tem de ser uma coisa de cada vez; há um mês, fiz nova solicitação dos pontos (que serão cobrados, a pretexto de aluguel do equipamento, por nada menos que R$ 25 mensais cada um), só que fui informado de que estão sem o aparelho - e sem previsão. À Comgás, pedi a conexão no novo endereço, mas colocaram uma vazão muito pequena e o banho fica gelado; quando fui pedir a correção, me disseram que o serviço feito 40 dias atrás não estava "encerrado no sistema", o que levaria mais 48 horas; dez dias se passaram - e até agora nada. Isso sem contar o tempo perdido em telefonemas e sites, a necessidade de repetir os dados todas as vezes, a falta de clareza de expressão. Para esses serviços de telemarketing, a tecnologia "vai estar atrapalhando" ainda mais...

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.