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Luis Fernando Verissimo
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Boas-pintas

A foto do Bellini levantando a taça no final da Copa do Mundo de 58, na Suécia, a primeira que nós ganhamos, virou ícone instantâneo. De todas as imagens que ficaram daquela Copa sem TV - o Garrincha fazendo vários joãos dançarem, o Didi pegando a bola no fundo do nosso gol depois que a Suécia marcou primeiro, no último jogo, e caminhando com ela embaixo do braço como um pai carregando uma criança malcriada pra casa, o lençol do Pelé sobre um sueco atônito, antes de marcar o mais bonito dos seus seis gols na competição - a do gesto triunfal do Bellini foi a que mais ficou. Tanto que, dizem, nas convocações para as Copas futuras houve a preocupação de se prever a repetição da cena: quem levantasse a taça teria que ser uma figura igualmente hierárquica e bonita. Na Copa seguinte - 62, no Chile -, o Bellini estava na delegação, mas o titular foi o paulista Mauro, que também era alto e, como se dizia na época, boa-pinta, e fotogênico. Foi ele quem levantou a taça. Não sei se é verdade, mas contavam que depois do Bellini o quesito "boa-pinta" passou a ser critério para escolha do capitão, ou pelo menos de um dos zagueiros, da seleção. Só isto explicaria a convocação, por exemplo, do baiano Fontana, um jogador supostamente medíocre, mas bonito, que fazia dupla com o Brito no Vasco da Gama e não faria feio imitando o Bellini de 58 numa vitória no México em 70. Fontana não chegou a jogar na Copa do México, que eu me lembre. Brito e Piazza foram os nossos zagueiros de área. Mas diziam que no caso da vitória do Brasil na final estar assegurada, o Brito, com sua cara de homem das cavernas, seria rapidamente substituído pelo Fontana antes do fim do jogo só para este ser fotografado levantando a taça. Mas isto já deve ser maldade.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2014 | 02h13

Nada a ver, mas também dizem que uma das condições para chegar a comandante de aviões de passageiros é ter voz de comandante. Duvido que exista mesmo esta norma, mas a verdade é que até hoje não ouvi nenhum comandante de voz fina. O preconceito não se justificaria: nada impede que um piloto de voz fina seja menos confiável do que um de voz grossa. Mas entende-se a preocupação. Os cursos de pilotagem incluiriam aulas de dicção e impostação de voz, ou então - também se especula - alguns aviões teriam, na cabine de comando, um locutor cuja única função seria se dirigir aos passageiros numa voz máscula e firme, de quem estará nos controles e saberá o que fazer não importa a situação, no lugar de um piloto esganiçado, que poderia causar pânico entre os passageiros com sua primeira comunicação. Para voar com segurança, você precisa imaginar que o comandante é o William Bonner.

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