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Boas chances de ficar calado

Lá estava a esposa atracada a outro, em pleno, arquejante, suarento entrevero carnal

Humberto Werneck, Impresso

27 Novembro 2018 | 02h00

Tem gente que não suporta o silêncio – de pura aflição, se põe a dizer qualquer coisa, na tentativa de obturar o vazio ameaçador. Não vivem disso os psicanalistas?

Motivo a mais para que o cronista se calasse, mas ele não resiste a deixar aqui ilustrações do que acaba de dizer.

O xará do papa

A meses de se aposentar, o secretário Paulo corria o risco de passar à História como o mais apagado de quantos diplomatas já teve o Itamaraty – e teria passado mesmo, não fosse aquele espantoso gran finale em Roma.

Aconteceu nos anos 70, quando o chanceler brasileiro decidiu reunir na capital italiana a fina flor da nossa diplomacia baseada na Europa. O secretário Paulo por certo não pertencia à nata, e se o encaixaram na pajelança foi (murmurava-se) pelo peso do sobrenome – pois, ainda que fruta miúda, pendia ele dos galhos de uma das grandes famílias, dinastias quase, que desde o barão do Rio Branco buscam injetar sangue azul nas veias plebeias do Itamaraty. Se não era brilhante, o secretário tinha pedigree lustroso – e isso, aliás, talvez explique por que não o expeliram da carreira quando, anos antes, ele deu aquele histórico piti, ainda hoje lembrado na Casa.

Histórico e histérico. Designado encarregado de negócios num minúsculo país africano, cujo nome a diplomacia recomenda silenciar, o secretário Paulo, bruscamente removido do frio setentrional, para o qual se considerava nascido, não aguentou mais que um mês de sol na moleira, fornalha que, segundo relatou, cozinhava suas ideias mesmo que fosse alta madrugada. “Meu sol da meia-noite é outro”, lamuriava-se ele, saudoso de renas, cachecóis e sobretudos escandinavos. E veio o dia em que, sem dar satisfação sequer a seu único subordinado, ele simplesmente fez as malas e se mandou.

À guisa de punição, fizeram a caridade de esquecê-lo nos desvãos de uma embaixada de segunda linha, porém europeia. E agora lá estava ele em visita a Roma, prestes a protagonizar o que ficaria sendo, dentro e fora da carreira, o seu maior momento.

Quem tem boca-livre vai a Roma – e como lá não se deve ir sem ver o papa, a programação dos diplomatas brasileiros tratou de incluir uma audiência com Paulo VI. Meteram trajes de ver Deus e tocaram para o Vaticano, onde, recebidos por uma revoada de monsenhores, foram orientados a formar fileira e aguardar que o Pontífice a percorresse, salpicando bênçãos. Ao nosso secretário, previsivelmente, coube o rabo da fila – e ali estava, hierático, quando Paulo VI veio vindo.

No que Sua Santidade lhe estendeu a mão a ser beijada, não teve dúvida: desabou de joelhos e, jogando os braços para cima, fez reboar nas abóbadas vaticanas seu italiano ensaiado:

– Anche Paolo sono io, come la Santità Vostra!

Os colegas quiseram morrer de vergonha cívica. Quanto ao pontífice, por um momento pareceu vacilar, para em seguida retomar a rédea e improvisar um carinho, um santo cafuné no desguarnecido cocuruto do secretário Paulo.

Dessa vez não teve jeito: anteciparam rapidinho a aposentadoria do xará do papa.

Expulso do armário

Auxiliadora é uma que não aguenta um branco na conversa: como nas figuras de um álbum infantil para colorir, acha que também no bate-papo todo espaço tem que ser integralmente preenchido.

Dia desses, numa reunião em casa, viu o assunto de repente se esvair, como a água estagnada que de uma hora para outra se espirala, gorgolejante, pelo ralo da pia. O fluxo de casos e risadas deu lugar a um espinhento silêncio, pontilhado de pigarros e sub-reptícias olhadas para o relógio.

Temerosa de que sua festa viesse a morrer ali, de inanição verbal, mal circulara a primeira rodada de empadinhas, Auxiliadora esquadrinhou cada escaninho de seu estoque de assuntos.

Nada.

À beira do pânico, circunvagou os olhos pela roda, uma, duas, três vezes, e foi então que se deteve naquele gordinho tímido, acompanhante de um dos convidados, desambientado a mais não poder, de quem ela tinha uma única informação, ou nem isso, uma suspeita que alguém lhe soprara em tom de fofoca. Não teve dúvida:

– Rogério, que tal é ser homossexual?

Com exceção de Auxiliadora e do gordinho, espetacularmente ejetado de seu armário, não ficou um na sala.

Pacote conjugal

Sabe Deus o quanto lhe custou mandar às favas o orgulho de macho e abrir o coração para o amigo, o primeiro e último a quem iria revelar o terrível episódio, do qual saíra com o coração escalavrado.

Àquela altura, principiou, já não dava conta de guardar o que descrevia, hiperbólico, como “um caranguejo podre” no peito.

Contou que o referido crustáceo se alojou em sua alma justo num dia que, ao contrário, lhe prometia coisas doces: seu aniversário de casamento.

Marido delicado ao ponto de lembrar-se desse tipo de efeméride, não quis que a data passasse em branco, e foi sobraçando um pacote de garrafas que chegou em casa, em horário inabitual.

A ideia era fazer uma surpresa à mulherzinha – mas, você adivinhou, quem se surpreendeu foi ele: numa barafunda de lençóis, lá estava ela atracada a outro, em pleno, arquejante, suarento entrevero carnal.

Com a perplexidade meio bovina que pode no primeiro instante paralisar um marido traído, ele nem sentiu as mãos fraquejarem e o embrulho despencar no chão, enquanto os amantes, em pelo, se punham em debandada, cada qual por um lado da cama.

Pausa para refazer-se de uma golfada de lacrimosa emoção – e eis que o amigo finalmente encontra o que dizer: “ E as garrafas, quebraram?”

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