Boal e a arte que faz a diferença

Produtor de Cabra Marcado para Morrer, Zelito Viana resgata o criador do Teatro do Oprimido

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2012 | 03h08

Dois em um - a popular fórmula pode ser invocada a partir de Augusto Boal e o Teatro do Oprimido, e duplamente. Zelito Viana realizava um documentário sobre o Teatro do Oprimido quando o criador do conceito morreu e ele ficou mais ou menos sem saber o que fazer, como Wim Wenders, quando morreu Pina Bausch, que também seria o centro de um documentário do autor alemão. Wenders seguiu em frente e descobriu no 3D a ferramenta para lançar o espectador dentro do processo criativo de Pina. Viana já viajara o mundo investigando o conceito transformador do teatro de Boal. Ele utilizou o material, claro, mas colheu testemunhos que tentam dar conta da grandeza da contribuição do artista. Dois documentários em um, mas não é só isso.

Numa cena, Boal e o diretor fazem um jogral, contando a história de uma doméstica, que se fez atriz, e chora por participar de um espetáculo. A emoção remete à mudança da personagem em cena e à mudança na vida dessa pessoa. Por falar em duplo, além de diretor importante, Zelito também foi produtor de obras que fizeram a diferença na história do cinema brasileiro - Terra em Transe, de Glauber Rocha; Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, cuja versão restaurada é uma das atrações do 17.º É Tudo Verdade (no sábado, dia 31).

Duplos, duplos, duplos. Augusto Boal e o Teatro do Oprimido não apenas dá conta da complexidade do personagem, como o faz por meio de um documentário que também tem suas virtudes como 'filme'. Os depoimentos, o material iconográfico, as representações - espetáculos em Moçambique e na Índia, ensaio nos EUA - buscam sempre colocar para o espectador essa 'poética' que permitirá ao indivíduo (às massas?) o sonhado mo(vi)mento de libertação. Boal acreditava que todo homem é um ator, porque atua, e um espectador, porque observa. Partindo dessa ideia de que o homem, portanto, é um espec-ator, o Teatro do Oprimido busca transformá-lo no sujeito da própria história. Como? Por meio de exercícios, jogos e técnicas teatrais que Boal sistematizou como método, com o objetivo de democratizar os meios de produção teatral, facilitar o acesso das camadas sociais menos favorecidas e a transformação da realidade pelo diálogo.

Boal pensou o teatro como Paulo Freire pensou a educação e Zelito Viana, fiel a seus conceitos, investiga os grupos sociais que mais podem se beneficiar do seu 'método', comparado aos de Brecht e Stanislavski. Presidiários, estudantes - é curioso que as escolas mostradas tenham grades nas janela, o que configura outro tipo de prisão -, centros de saúde mental. Para chegar à afirmação do teatro do oprimido, o diretor faz a síntese da (r)evolução do teatro brasileiro mais engajado (e social). Teatro de Arena, Opinião, teatro invisível. O Boal que emerge do filme é aquele imortalizado por Chico Buarque numa música que marcou época, Meu Caro Amigo. Zelito, enfim, era irmão de Chico Anísio e, no começo de sua carreira, fez uma comédia chamada O Doce Esporte do Sexo, com alguns dos personagens que o humorista criara na TV. O registro extrapola o É Tudo Verdade, mas é importante para dar conta de quem é o diretor de Augusto Boal e o Teatro do Oprimido.

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