Boa música, compreensível e instigante

Inglês Thomas Adès fez painel de sua obra e revelou-se excelente regente à frente da Osesp

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h08

Já no último Música na Cabeça, série de encontros com o público promovida pelo Estado e a Osesp, o compositor inglês Thomas Adès mostrou a que veio. À vontade, esbanjou honestidade criativa. Raridade. Declarou que não gosta de Verdi nem de Wagner, e pouco de ópera. Logo ela, que lhe deu o passaporte para a notoriedade internacional em 1995, com Powder her Face. Ao comentar que trabalha em sua terceira ópera, baseada no clássico filme O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, disse que "quando assisto ópera fico com a mesma angústia, com relação aos atores no palco, que sinto ao ver o filme de Buñuel, em que os convidados de um banquete permanecem enclausurados no ágape por dias, semanas".

Para quem transita bem pela cozinha da criação musical, foi uma bela e bem-humorada aula sobre as peças que seriam ouvidas em seguida. Começou com as "séries magnéticas" de Polaris. Sem dúvida, uma nova maneira de usar as doze notas cromáticas da escala. Passou pela estrutura formal do concerto para violino e suas "espirais harmônicas", e o uso da chacona no segundo movimento. E concluiu com a exploração de cores instrumentais e a instituição de métricas diferentes no interior do discurso sonoro - algo que se tornaria sua marca - em Asyla.

Adès é um regente excepcional, tão bom quanto pianista (talento que infelizmente não mostrou ao público paulistano nesta meteórica e esquisita concepção de "compositor residente" por sete dias). Já em O Filho do Rabequeiro, poema sinfônico em que Janácek pratica uma orquestração aérea, delicadíssima, Adès mostrou perícia notável na regência. Em boa hora, um caderno especial de 16 páginas traduziu o artigo de Richard Taruskin sobre Adès. Fino e mordaz, este lembra que hoje em dia existe "um vasto repertório acumulado: um passado que permanece como desafio eternamente presente e intimidante" a todo compositor contemporâneo. Neste sentido, Adès é exemplar. Escarafuncha o passado; não o clona, mas o traz para o seu universo criativo. Não há preconceito - nem banalidade.

Pena que muitos assinantes da Osesp tenham decidido previamente que um concerto de música contemporânea seria necessariamente chato e hermético. Muitos assentos vagos, portanto, de saída. Outro tanto não retornou do intervalo, após a excepcional Asyla.

A segunda parte, onde se sucederam o concerto para violino e Polaris, propiciou outra debandada. Puro preconceito. A recusa aparente do virtuosismo do solista deslocou-se para o interior da orquestra, onde várias métricas simultâneas se confrontavam. Ao solista, restava a tarefa dificílima de instituir uma outra métrica, diferente das as anteriores.

Infelizmente, a estréia sul-americana de Polaris foi manca. Faltou a projeção em vídeo do israelense Tal Rosner, que Adès considerou essencial para a performance, em recente entrevista ao site San Francisco Classical Voice. Em todo caso, a música sustenta-se como proposta de superar o dilema dos compositores atuais tal como Taruskin o colocou acima. Adès instituiu uma nova forma de organização do material sonoro, as séries magnéticas - e não fez disso um manifesto teórico que na prática soaria hermético. É boa música, compreensível, instigante.

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