Boa história que se leva para casa

Trupe Clowns de Shakespeare, de Natal, mostra na cidade seu ‘desespetáculo’

Beth Néspoli,

09 de outubro de 2009 | 12h32

Do teatro, ainda se espera uma boa história e bem contada. Interpretada por atores que provocam riso inesperado numa cena, emoção em outra, surpreendem na forma e, ao fim de tudo, presenteiam com aquela reflexão que acompanha o espectador de volta para casa. Pertence a essa estirpe de criação teatral a montagem O Capitão e a Sereia, do grupo potiguar Clowns de Shakespeare.

Com sede em Natal, essa companhia que acaba de completar 15 anos de estrada e cujo reconhecimento há muito já ultrapassou as fronteiras de seu Estado - inicia temporada hoje de O Capitão e a Sereia no Sesi Vila Leopoldina. “É a primeira vez que estreamos fora de Natal”, diz Fernando Yamamoto, o diretor da trupe, numa conversa após um ensaio acompanhado pelo Estado. ‘Estreia’ em Sampa é mesmo novidade - o projeto de montagem foi selecionado por edital -, mas não a presença do grupo. Em 2005, essa trupe ocupou o ‘nobre’ Teatro Anchieta, com uma temporada de Muito Barulho por Nada e, dois anos depois, fez residência artística no Tusp com três peças de seu repertório. “No Estado de São Paulo esta é a décima vez que apresentamos nosso trabalho”, diz Yamamoto, referindo-se a outras passagens, como pelo Festival Internacional de São José do Rio Preto.

No palco os atores, Renata Kaiser, César Ferrario, Marco França e Camille Carvalho tocam vários instrumentos musicais. Atuam sobre um tapete-mapa de formato ovalado que se transmuta de sertão a mar. A dramaturgia teve como ponto de partida o livro infantil escrito e ilustrado por André Neves, O Capitão e a Sereia (Scipione). A fábula original gira em torno do Capitão Marinho, um sertanejo apaixonado pelo mar que faz disso tema das narrativas de sua trupe teatral mambembe. Porém um dia, ao escutar o som de uma concha, ele decide partir em busca do oceano. É uma saga do herói, que supera desafios e ganha em troca um aprendizado profundo. Depois de mergulhar com uma sereia ele volta ao sertão.

Mas nessa fábula, a trupe do Capitão Marinho só aparece no comecinho. Esse abandono interessou em especial ao grupo que fez dele o cerne de sua criação que chama ‘desespetáculo’. E não por acaso. Num país de políticas culturais deficientes, é bem conhecido o problema da diáspora nos coletivos teatrais. “Éramos sete e, subitamente, três atores foram embora.” A vivência que quase desestruturou o grupo se tornou poética de cena. No palco, eles se transmutam na trupe Escorrega, mas não Tropega, que é obrigada a ser virar para contar sua história sem o ator protagonista, o Capitão Marinho, que partiu em busca do mar. Mote perfeito para o grupo, com o rigor que lhe é peculiar, exercitar múltiplas linguagens. “É a nossa criação mais experimental, do espaço à dramaturgia”, diz Yamamoto.

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