Blitz, uma peça para realizar dois desejos

/ RIO

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2010 | 00h00

A atriz paulistana Janaína Ávila já havia produzido uma peça de Bosco Brasil, Cheiro de Chuva (2007), mas nunca trabalhara com ele como atriz. O diretor carioca Ivan Sugahara admirava textos como o de O Acidente (2000) e Novas Diretrizes em Tempos de Paz (2002), e tinha dito ao autor que gostaria de dirigir um outro no futuro. Os desejos dos dois se concretizam hoje, com a estreia de Blitz, no teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, no Rio.

A produção, mais uma peça do premiado Bosco escrita para dois atores, é novamente de Janaína, que escolheu uma peça escrita em 2002 e montada em São Paulo, em mostra de dramaturgia no TBC, e editada na França em 2007.

"O personagem nunca termina a peça do jeito que começou. Bosco aponta o caminho, mas não dá o final feliz. Coloca não um ponto final, e sim reticências", diz a atriz, que vem do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho e está no ar na novela Tempos Modernos, da TV Globo, escrita também por Bosco.

O espectador logo percebe que a solidão a dois e a falta de comunicação tão presentes no teatro de Bosco são dois elementos que permeiam o relacionamento de Helô do Pãozinho (Janaína), balconista de uma padaria, e seu marido, o cabo da Polícia Militar Rosinha (Marcello Escorel). Um dia, ele chega do trabalho e a encontra de malas feitas, pronta para sair de sua vida. A reviravolta no casamento se dá porque o PM é acusado de matar um estudante de 12 anos em blitz seguida de tiroteio, numa escola onde o cabo e seus colegas foram procurar armas. Depois de anos de convivência diária, Helô se vê diante de um homem que julga não conhecer de verdade. Será preciso muita conversa para que o marido a convença do contrário. A opinião pública crucifica o policial, mas o que interessa a Rosinha é o apoio de sua mulher.

"A peça mostra como a violência das grandes cidades repercute também no microcosmo, se infiltra na vida privada, contamina", conta Sugahara. "São duas pessoas tentando se comunicar, com as interferências externas minando o relacionamento."

Marcello Escorel, que fez Tropa de Elite, vive um tipo geralmente tratado como vilão na dramaturgia. Em Blitz ele é um marido sob pressão. Ator também de Cheiro de Chuva e O Acidente, ele foi o primeiro ator em quem Janaína pensou. Ela cogita adiar a ida para o Centro Cultural São Paulo por conta das obrigações dele com a TV Record.

A atriz vê a montagem em São Paulo como natural. "O Rio é uma aposta. Não recebe muitos textos dramáticos, e a receptividade é mais complicada. E os artistas se acostumam com isso. Mas acho que vou vencer", acredita Janaína, que conseguiu patrocínio da Eletrobrás para a estreia no Rio, mas ainda não tem apoio em sua cidade.

BLITZ

Casa de Cultura Laura Alvim.

Avenida Vieira Souto 176, Ipanema, Rio de Janeiro. 5ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 30. Até 30/5

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