Blaxploitation gera polêmica

Mostra reúne os mais importantes filmes ligados à agitação racial dos anos 70 nos EUA

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h07

Quando Quentin Tarantino fez Jackie Brown com Pam Grier, não houve crítico que não destacasse o resgate que o diretor fazia da musa dos blaxploitation movies. Vale viajar no tempo, voltando 40 anos atrás. Por volta de 1970, depois de mais de uma década de agitação racial, os EUA finalmente arquivavam suas leis segregacionistas e Hollywood descobriu que havia um público interessado em histórias de (e astros e estrelas) afro-americanos.

Os blaxploitation movies supriam essa carência e agora o Centro Cultural Banco do Brasil e o Cinesesc promovem o ciclo Tela Negra, com os filmes mais famosos da tendência. Rififi no Harlem, Shaft (o original, de Gordon Parks), Cleópatra Jones, Super Fly e, num tributo, o Jackie Brown de Tarantino. Um título muito especial é o clássico Sweet Sweetback's Baadass Song, mas quanto a este existe a maior polêmica. Mesmo sendo considerado o título 'nobre', a obra-prima da tendência, Sweet Sweetback's é tudo, menos um blaxploitation movie.

Quem afirma isso, numa entrevista por telefone, de Nova York, é o próprio Melvin Van Peebles. Ele entrou para a história como o primeiro negro norte-americano que dirigiu um filme, mas para isso precisou realizar La Permission na França, em 1967. Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, talvez simplifique a questão, mas diz que, por mostrar um soldado negro norte-americano que dorme com uma francesa, o filme virou uma obra-prima. O próprio Melvin tem outra explicação. "O filme é uma obra-prima porque é muito bom, e adiante da sua época." O mesmo pode-se dizer de Sweet Sweetback's.

"Eu era muito arrogante, reconheço", diz o velho Melvin Van Peebles, de 79 anos. Sua trajetória foi sinuosa. "Queria ser astrônomo e até estudei em Harvard, mas não concluí o curso. Fui ser operador de bombardeio e isso me levou à Europa, durante a 2.ª Guerra. Depois, voltei, porque queria ser escritor. Era inviável um negro ser escritor na América, nos anos 1940/50." Ele escreveu seus livros, fez seu filme (que não tinha nada a ver com a nouvelle vague). "Aqueles diretores eram muito burguesinhos." La Permission provocou um escândalo. "Os norte-americanos ficaram completamente embaraçados. Imagine, eu virara escritor e cineasta na Europa. Um estúdio me convidou para fazer The Watermelon Man, A Noite em Que o Sol Brilhou, mas não me deixava fazer o filme como eu achava que devia ser feito. Fingi que ia fazer o filme deles. Watermelon me deu muitos problemas, mas sem a decepção desse filme eu não teria feito Sweet Sweetback's."

Um filme independente que Melvin Van Peebles escreveu, dirigiu, interpretou, montou. Um prostituto negro salva um Pantera Negra do ataque de policiais racistas e foge com a ajuda dos Hell's Angels. O filme tem cenas de sexo explícito e a trilha, do próprio Melvin, foi interpretada por Earth, Wind and Fire. O álbum foi lançado antes e ajudou a financiar a pós-produção e o lançamento. Exibido em dois cinemas, o filme virou cult. Sua montagem - os jump cuts - foi considerada revolucionária na época. "Sweet Sweetback's era o contrário de um blaxploitation movie porque é essencialmente político. Para ser Pantera Negra, o sujeito tinha de ver meu filme e expressar uma opinião sobre ele. Já os blaxploitations eram produções de Hollywood, puro lixo para imitar o cinema dos brancos."

Melvin não tem pudor em se dizer que era um gênio. Ele tem carinho pelo filho, Mario Van Peebles, também ator e diretor, mas diz que Mario preferiu seguir o caminho de Hollywood. Hoje, o mundo mudou, os EUA têm um presidente negro. Melvin sabe que fez parte da mudança, mas continua insistindo que sua provocação política não deve ser confundida com o blaxploitation.

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