'Blanquette de veau'

-Mmm. Blanquette de veau...

Verissimo, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2014 | 02h06

- Gosta?

- É meu prato preferido.

- Eu sei.

- Sou um especialista em blanquettes de veau.

- Eu sei.

- Acho que o teste de um bom cozinheiro, ou de uma boa cozinheira, é a blanquette de veau. E não tenho paciência com quem se mete a fazer blanquettes de veau sem saber como. Certa vez, fechei um restaurante com a minha crítica do seu blanquette de veau. O dono leu a minha crítica e fechou o restaurante no mesmo dia. Ouvi dizer que ele se suicidou.

- É verdade.

- Um crítico gastronômico precisa ser implacável. Senão os incompetentes - ou, pior, os pretensiosos - tomam conta.

- Espero que o senhor aprove a minha blanquette.

- A senhorita sabe, claro, que eu não deveria estar aqui. Como crítico gastronômico, não posso aceitar convites como o que me fez. Mas não pude resistir.

- Talvez o meu decote o tenha convencido.

- Certamente ajudou.

- Mas coma, coma... Quero ver se o seu paladar é mesmo aguçado, como dizem. Minha blanquette tem alguns ingredientes incomuns...

- Mmmm... Vamos ver. Não posso fazer feio. Detecto o vinho branco seco de qualidade, como convém... A vitela e o creme no ponto... Manteiga, farinha, perfeito. E um certo gosto forte de... sal do Himalaia?

- Cinza.

- Cinza?!

- As cinzas do meu pai, que foi cremado depois de se suicidar por causa da sua crítica.

- Cinza. Interessante. Mas há algo mais... Eu diria... Tomilho?

- Não.

- Estragão?

- Veneno.

- Veneno. Claro. Esta não é uma blanquette de veau, é uma vingança.

- Acertou.

- Eu deveria ter desconfiado do decote...

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