Blake, o porta-voz do silêncio

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Emanuel Ponciano Bomfim, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

O ano de 2011 já tem seu primeiro fenômeno e atende pelo nome de James Blake. A impecável versão de Limit to Your Love, da canadense Feist, rapidamente virou febre na internet e funcionou como cartão de visitas para seu álbum de estreia, lançado nesta semana na Europa. Na prática, o menino prodígio já vinha dando amostras de seu talento bem antes da chegada do disco cheio. Lançou três EPs nos últimos dois anos: The Bells Sketch, CMYK e Klavierwerke, logo cultuados por figuras influentes na tribuna do pop, como o radialista Gilles Peterson. O caminho aberto pelo The xx, adeptos do mesmo som minimalista e desta "eletrônica esparsa" (como define o próprio), foi o que permitiu o justo burburinho em torno do talentoso produtor londrino.

Surgido na cena dubstep, Blake não é um representante típico do gênero, ainda que faça uso do "grave gravíssimo". Apoiado em sua voz aveludada de interpretação gospel, ele sofistica o dubstep ao incorporar elementos do jazz e do soul. Traz uma dinâmica nova para este tipo de som, reforçado por um piano de origem clássica e as tradicionais melodias tristes, na mesma linha de outros ícones da cena, como Burial e Kode 9.

O segredo está na arquitetura, na forma construída por Blake e seus sintetizadores. O silêncio tem papel primordial, pede a contemplação. A mais ruidosa delas, I Never Learnt To Share, ganha clima de pista, mas evolui de maneira lenta, sobre ecos e colagens vocais. A letra se resume a três versos, mas é assombrosa: "Meu irmão e minha irmã/Não falam comigo/Mas eu não os culpo". Na mesma toada, surge To Care (Like You), uma canção de amor de contornos extraterrenos, em que um androide lamenta o fim de uma galáxia. Num momento mais sublime, adequado para recuperar o fôlego após a emocionante Limit To You Love, Blake debulha um lindo piano e canta desprovido de efeitos em Give My Month.

Experimental, o álbum não se perde em modismos, como se não houvesse conteúdo. A estrutura propositalmente disforme reflete canções pouco convencionais, mas de uma força tremenda. James Blake, acima de tudo, é um porta-voz do silêncio. Um silêncio fascinante.

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