Black is biutiful

O que Luiz Fernando Carvalho diz nas entrelinhas de Surburbia

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h10

Você pode citar a experiência do roteirista Paulo Lins nas favelas cariocas, um dado de que ele também se nutriu para escrever Cidade de Deus. Pode dar a palavra ao diretor Luiz Fernando Carvalho que, em entrevista ao Estado, lembrou velhas anotações que fazia ao ouvir as histórias que lhe contava a cozinheira da família. Betânia foi a mãe preta que ele teve por mais de 25 anos. Negra e analfabeta, era uma Sherazade nata.

Carvalho sentiu agora necessidade de se voltar para aquelas narrativas. Elas constituem a base de Suburbia, sua nova microssérie, em oito capítulos semanais, que a Globo exibe desde quinta-feira. Independentemente das qualidades, maiores ou menores, que Suburbia possa ter, e tem, o que em primeiro lugar intriga é o título. Por que Suburbia?

A etimologia da palavra é greco-romana e indica a região que segue para o arrabalde e que fica fora da cidade (a polis, a urbe), mesmo fazendo parte de sua jurisdição. No Brasil, usa-se preferencialmente subúrbio, no masculino, e a palavra foi muitas vezes invocada por conta de Avenida Brasil, a novela de João Emanuel Araújo que virou fenômeno ao retratar o segmento social a que as mudanças econômicas deram força no País, nos últimos anos.

Suburbia é usada em Hollywood, em filmes como Beleza Roubada e Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes. Retratam a periferia das grandes cidades dos EUA. Nada de negros nem pobres. O que Luiz Fernando Carvalho está querendo dizer com seu título? A microssérie conta a história de Conceição, devota da Santa, que deixa o interior de Minas para tentar a sorte no Rio. As imagens iniciais puseram na tela a c cultura carvoeira, como Avenida Brasil colocou o lixão. Pode ser coincidência, mas houve grandes documentários recentes sobre o assunto.

Faltava urubu no lixão de Avenida Brasil, o sítio de carvão de Carvalho rende imagens deslumbrantes. Ele é, todo mundo sabe, um esteta. É também um investigador da linguagem. É ou era? Porque a maior mudança de Suburbia, no primeiro capítulo, foi na forma de narrar. Carvalho fragmenta o tempo, picota a imagem, mas o começo de Suburbia foi quase uma súmula de clichês. O subúrbio para a classe A, que só consome Hollywood. Conceição suplica alimento com o olho, é confundida com ladrões, vai para a Febem, foge. Tudo déjà vu. Os atores são não profissionais, mas talvez não seja para realçar o lado documentário. Cada um(a) que entra em cena, a gente faz 'óóó'. Black is beautiful. Beleza pura. Não a miséria nem a violência. A suburbia de Carvalho, como a de Sam Mendes, retrata a violência moral. Não por acaso, o primeiro capítulo terminou com o estupro de Conceição pelo companheiro da patroa. A trama continua.

Crítica: Luiz Carlos Merten

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