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Humberto Werneck
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Bizarrias parisienses

Agora que a gente se fartou de torre Eiffel, Notre-Dame e Arco do Triunfo, que tal botar o olho para vadiar pela cidade, sem guia, sem roteiro, sem qualquer urgência de turista? Prometo não levar você de novo a um cemitério, como fiz na semana passada, quando vagamos pelas aleias do Père Lachaise, para ali topar, entre outras bizarrias, com aquela estátua de um moço largadão sobre a lápide, cujo sexo, lembra?, protuberante sob as calças de bronze, acabou ficando reluzente, de tanto ser apalpado por moças desejosas de engravidar.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2015 | 02h00

Poderíamos ir também ao cemitério de Montparnasse, onde Sartre e Simone de Beauvoir pela primeira vez coabitam, não longe, por sinal, de onde estão Julio Cortázar e Charles Baudelaire, em túmulos separados, naturalmente. Mas vou poupar você de tanta morbidez, por literária que seja.

Poupar? Nem tanto: está vendo estas cinco placas de granito incrustadas no asfalto da Croix-Faubin, ruinha tão desgraciosa, esquina com Rue de la Roquette? Só outro dia reparei nelas, e, como não resisto a um enigma, recorri a uma velhinha que me viu coçar a cabeça: era sobre essas pedras, contou ela, que, em dia de execução, os funcionários da morte assentavam as patas da guilhotina, para que uma eventual instabilidade não comprometesse a solenidade do espetáculo.

O condenado era trazido da prisão de La Grande Roquette, que até o finalzinho do século 19 funcionou aqui em frente, onde hoje há um parque. Não, nada a ver com a Revolução Francesa, foi bem depois. A notícia corria – hoje tem! – e à noite o povaréu vinha ver o literal rolar de cabeças. Para você ver que a programação noturna de Paris já foi mais diversificada.

Esta cidade tem disso, coisas aparentemente irrelevantes que almas benditas se empenham em preservar, quase sempre assinaladas com uma placa, aqui morou fulano, aqui morreu beltrano, aqui aconteceu isto ou aquilo. São tantas que algumas, de memória menos ribombante, correm o risco de passar despercebidas. Até outro dia, por exemplo, eu não tinha tomado conhecimento de um pequeno cartaz, com moldura envidraçada, afixado em lugar de muito movimento, o comecinho da Rue Royale, junto à Place de la Concorde. Está ali faz mais de 100 anos, 101, para ser exato, desde o dia em que as autoridades comunicaram aos cidadãos que a nação deveria se mobilizar para o que veio a ser a Grande Guerra de 1914-1918.

Nunca tinha reparado, também, noutra relíquia, a barrinha de mármore branco sob as arcadas do prédio da Rue de Vaugirard, 36, no Quartier Latin. Foi encravada na parede entre os anos 1795 e 1797, para que o povo se inteirasse do tamanho exato da nova unidade oficial de medida, batizada metro, equivalente, esclareceu-se, à 10.ª milionésima parte do arco do meridiano compreendido entre o polo Norte e o Equador. Outras 15 barrinhas foram espalhadas pela cidade, e duas delas chegariam a nossos dias – mas só essa no lugar onde foi originalmente colocada.

O capítulo das singularidades parisienses inclui também, não se escandalize, um mictório – você ouviu bem, um centenário mictório, remanescente hoje único das centenas que até 40 anos atrás proporcionavam alívio a cidadãos do sexo masculino nas calçadas da cidade. Eram conhecidos como “vespasiennes”, em memória do imperador romano que teve a ideia pioneira de dotar as ruas de um pronto-socorro para urgências urinárias.

Gorduchas, pesadonas, as vespasiennes consistiam num cilindro verde-escuro de uns 2 metros de altura, parcialmente envolto por fina parede circular, também metálica, encarregada de garantir privacidade ao usuário. Não absoluta, pois, apoiado em hastes finas, esse envoltório não chegava até o solo, de forma que para os transeuntes ficava difícil não ver os pés de quem fazia o desembarque hídrico. A última das vespasiennes segue firme numa calçada do boulevard Arago, quase esquina da Rue de la Santé, sem sinais de utilização recente, porém disponível, como sempre esteve.

Desconfio que você está morrendo de vontade de dar uma passada lá, não por motivos fisiológicos, eu sei, mas já chega, vamos tomar o rumo da torre Eiffel, da Notre-Dame, do Arco do Triunfo, uma dessas manjadas banalidades que Paris insiste em nos oferecer.

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