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Bizarrias na fachada

Quem já esteve num lugar chamado - com boas razões, diga-se - El Imposible, insignificância urbana perdida na aridez da Baja California, não tem mais o direito de estranhar denominações bizarras. Ainda assim, há sempre por aí alguma esquisitice onomástica a me impressionar e divertir.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h09

Não me refiro ao obeso filão dos nomes de gente, quesito em que o Brasil parece ser imbatível. Falo aqui desses que em qualquer cidade se penduram sobre nossas cabeças. Em outros países, inclusive. Recentemente, em Paris, vi um restaurante Purgatório em frente ao cemitério Père Lachaise, e uma livraria Mona Lisait, que aqui se pode traduzir como Mona lia.

Venho enchendo cadernetas aonde quer que vá. Não quero reprisar a bobeada que dei, anos a fio, quando, no cruzamento da Duque de Caxias com a Rio Branco, em São Paulo, me limitava a olhar a placa da Casa de Carnes Jocasta. Ninguém acredita, deveria ter fotografado. E pensar que não fui lá saber se o dono do estabelecimento era um tal de Édipo.

Um dia, cadê a placa? O açougue, quem sabe psicanalisado, tinha mudado de nome, agora uma trivialidade qualquer. Agora o Google me informa que ali perto, na Praça Princesa Isabel, funciona um Açougue Jocasta. A denominação perdeu contundência, mas é reconfortante constatar que dona Jocasta segue firme no oferecimento de suas carnes. Hora dessas vou conferir quais, exatamente. Quero conhecer também uma gêmea da Jocasta, a Casa de Carnes da Mamãe, em São José do Rio Preto.

Uma caminhada por Copacabana, faz uns dias, me fez topar com um Instituto de Depilação Pello Menos; com uma lanchonete que, especializada em croissant, se chama, argh, Croasonho; com a pet shop, duas vezes argh, Cãopacabana. Você já reparou, é claro, na fartura de denominações trocadilhescas para esse tipo de empreendimento - nenhuma delas mais animal que a paulistana Amaro's Bichos, na Avenida Santo Amaro. Já vi uma Estimacão, assim mesmo, sem cedilha. Amicão. Cãoveniência. Em Santos (onde os amigos Zé Luiz e Rodrigo me apresentaram o bar Álcool Íris e o "café music bar" Flor de Zíaco), soube da existência da pet shop - segure-se aí - Au Que Mia.

Em Belém, galantes aflitos podem recorrer à floricultura SOS Conquista. Na Belo Horizonte dos anos 70 a rapaziada se amarrava nos artigos da Cinto Muito. Tem lá um Salão de Beleza Mumiah - e coisa tão pior, gente, que até me avexo ao transcrever neste jornal de famílias: a Desentupidora, desculpe, Rola Bosta. Sou mais o humor soft do proprietário de uma banca do Mercado Central belo-horizontino por ele batizada PC Farinhas.

Coleciono também nomes de motéis que desafiam a imaginação não somente erótica de quem por eles passa. Sei que você não costuma frequentar alcovas de alta rotatividade, mas talvez queira conhecer, de nome, alguns deles. O Neblina e o Hypnose, por exemplo, para quem prefere não ver o que está fazendo. O Kiss Me, para quem não sabe por onde começar. Amores gregos? Tem o Mykonos - ou, mais explícito, o Sodoma. Já o Ele Ela parece exclusivo para pares convencionais. Amores ardentes: no Pepper. O Pharras acena com algo a mais, nem que seja um H mudo. Casais assertivos vão ao Yes! ou ao Topa Tudo, enquanto os indecisos balançam entre o Não Sey e o C que Sabe. Vem K!, piscam néons aliciadores.

Há todo um capítulo macabro em que pontificam funerárias como A Criativa, de Salvador, ou a Irmãos Panico (proparoxítona, ainda que sem circunflexo), de Pederneiras, SP. No Arraial do Cabo, litoral fluminense, prospera a Vai com Deus - tanto quanto em Fortaleza a Funerária Ternura, cujo slogan por pouco não serviria também para um motel: "Um coração de portas abertas". A Vai com Deus, dizem, cobra apenas a viagem de ida.

Diante de certas placas e fachadas, tenho a impressão de que o dono escolheu o nome e a partir dele o ramo de atividade. Imagino que aquela loja em Ipanema vende artigos para viagem só porque a seu fundador ocorreu esta bobagem: A Mala Amada. Eu mesmo já bolei um comércio de laticínios que jamais abrirei, cujo nome ponho à disposição de quem queira tirá-lo do terreno da mera travessura verbal: Queijos & Quejandos. Pode levar, dou de graça.

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