Bioy casares vê o Brasil sem glamour

Diário do ficcionista argentino fala da visita ao País, em 1960

Paulo Sérgio Pinheiro, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

O escritor argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), quando publicou em 1959 o livro Grinalda com Amores, explicou o que implica escrever um diário: "Seguimos o desenvolvimento das situações em que nos vemos envolvidos, com a esperança de que a realidade se mostre criativa; agradecemos ao menos em nossa qualidade de autores, uma solução patética ou indecorosa. Inconveniência de escrever um diário: diante de nós mesmos documentamos a futilidade da vida." Treze anos antes, Bioy já começara o seu monumental (não há outra palavra) diário, Borges (Ediciones Destino, 2006, 1.663 páginas), publicado postumamente, a crônica de sua vida em torno do amigo e parceiro em literatura, Jorge Luis Borges, até a morte deste, em 1986. Bioy faz as vezes de James Boswell escrevendo a Vida de Johnson ou Alice Toklas sobre Gertrude Stein na Autobiografia de Alice B. Toklas. É o registro mais completo, minucioso, trepidante do pensamento crítico e da colaboração da dupla Bioy Casares e Borges, que quase todo dia ia almoçar ou jantar na casa do outro.

Quando vi o recém-publicado Unos Dias de Brasil (Diario de Viaje), de Adolfo Bioy Casares, cobrindo sua estada de 23 a 30 de julho de 1960, no Rio, São Paulo e Brasília, fui direto ao Borges para ver o que estava ali registrado. Nada. Somente: "Domingo 31 de julho: Em Buenos Aires, de regresso do Brasil. Borges come na minha casa." Essa ausência da visita nas 42 páginas de pequeno formato (12 cmx19 cm) do Diario talvez deixasse entrever que Bioy considerava o registro quase íntimo ou irrelevante. Originalmente, o livro havia sido publicado em 1991, com apenas 300 exemplares distribuídos pelo autor.

É o diário mais mal-humorado, amargo e azedo entre centenas de outros de visitantes estrangeiros ao Brasil desde o final do século 19. Bioy não gosta de nada, tudo o aborrece, agride, ofende na comida, artes, conversas, pessoas, arquitetura, no Rio, São Paulo e Brasília. Bate o enfado de Albert Camus, em Diário de Viagem, de 1949, levado, coitado, para visitar a Penitenciária do Estado - e fica anos-luz do entusiasmo de Blaise Cendrars, em 1952, em seu Brasil, Vieram os Homens.

Talvez grande parte do mal-estar de Bioy provenha dele ter aceitado vir participar de um congresso do PEN (Poetas, Ensaístas, Novelistas) Clube no Brasil, em companhia de Graham Greene, Alberto Moravia (cuja mulher Bioy chama de sra. Moravia, sem se dar conta ser a escritora Elsa Morante) e Salvador Madariaga. No congresso, o mau humor de Bioy não o impede de ver com agudeza algumas das características dos literatos pátrios em tais reuniões: ali "funciona uma retórica inflamada e barroca, generosa de epítetos, de aumentativos, de expressões extremas, junto a uma força de progresso como não se encontra em nenhuma parte. Para falar do mundo brasilero (sic) essa retórica tem de ser empregada".

E olha que 1960 era um ano com certa graça. Fidel Castro passeia no Rio vitorioso, Vinicius de Moraes lança sua Antologia Poética, o "almirante" (sic) Lott é candidato a presidente, mas tudo escapa a Bioy. JK inaugurara Brasília mas para o visitante a cidade tem algo "do sonho de arte moderna de um funcionário imaginativo; talvez de um demagogo imaginativo", "uma operação de sátrapa indiferente" e "Brasília é ambiciosa, futura, pobre em resultados presentes, incômoda". E se preocupa com a distância do hotel para ir comprar uma escova de dentes. As fotos que tira em Brasília, de indígenas, crianças e, na imensidão vazia do planalto, os prédios de Niemeyer (que Bioy esnoba inteiramente) são imersas em tristeza e profunda melancolia. Vai a um coquetel no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, onde naquele ano, na 7.ª Bienal, houve uma exposição sobre realismo fantástico - e eram os tempos dos neoconcretos. Bioy logo profere: "O mundo oficial brasileiro está amarrado de pés e mãos ao quanto de cubista, concreto ou abstrato, proponha a suas bobajadas". Na sessão de encerramento da reunião do PEN Clube na Faculdade de Direito da USP, provavelmente sob o olhar de dom Pedro II ali entronizado até hoje, que Bioy não nota, sofre com mais discurseira: "Em sentido geral os discursos dos donos da casa consistem exaltar as virtudes da "casa" em que nos recebem: a beleza da baía do Rio, o dinamismo do parque industrial de São Paulo, o "mais importante da América do Sul!", o mistério do Amazonas, "que é outro mundo, outro mundo"." E faz inefável visita ao Instituto Butantã, onde "vemos bem perto e (eu) com horror cobras corais, falsos corais, cobras, boas, escorpiões, aranhas".

Afinal Bioy acaba a viagem frustradíssimo porque não realiza o reencontro com uma menina brasileira, Ophelinha, que encontrara num navio em viagem a França, em 1951, onde lhe explicaram "havia desmaiado "por amor por mim" ao passar ao lado de sua mesa no restaurante". Tratava-se de uma "brasilerita (sic) dourada e roliça, de olhos azuis". Com a qual ele, como relatou na entrevista no programa da TV Cultura Roda Viva em agosto de 1995, depois vai ter um encontro amoroso em Paris (a idade da menina não fica clara). Quando surge a oportunidade da viagem ao Rio em 1960, Bioy fantasia reencontrá-la, agora dez anos mais velha. Somente isso, parece, teria valido a viagem: "A grande desilusão da viagem: não ter encontrado Opheliña. Uma pena romântica. Tantas vezes imaginei uma conversa com ela que me havia acostumado à ideia que a veria." Quando chega em Buenos Aires lhe espera um pedaço de papel num envelope, enviado do Rio, com uma frase escrita a lápis: "Viejo verde, corruptor de menores, no me tendrás, Ophelia."

Num exaltante posfácio, Michel Lafon, estudioso francês da obra de Bioy e seu amigo, se extasia: "Parece-me um livro sublime, uma culminação póstuma da "magia modesta de sua prosa"." Ao leitor cabe verificar, dada a culminância inegável na literatura universal da obra do genial autor de A Invenção de Morel. Talvez a melhor forma de ler o Diario idiossincrático seria tomar o Bioy do Brasil quase no território da ficção, com suprema ironia e distanciamento, único ângulo capaz de captar o absurdo e o fantástico brasileiro.

PAULO SÉRGIO PINHEIRO É CIENTISTA POLÍTICO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.