Biógrafo apresenta Chet Baker como violento e egoísta

Jim Morrison foi um coroinha. Janis Joplin, uma beata. Brian Jones não era mais do que um frei franciscano. Quando o rock-and-roll trouxe seus junkies mais pervertidos, Chet Baker já virara mito tanto pelas notas espaçadas que saíam de seu trompete quanto pelas incalculáveis doses diárias de heroína que injetava nas veias. Sua vida, que atravessaria milagrosamente os anos 50, 60, 70 e grande parte dos 80, foi de fazer inveja à rebeldia roqueira e de deixar sem fôlego até mesmo Charlie Parker. Sua mais densa biografia chega ao Brasil com o nome de No Fundo de Um Sonho - A Longa Noite de Chet Baker (Cia. das Letras, 493 págs, R$ 49), escrita pelo pesquisador e colaborador do The New York Times, James Gavin. Em seis anos de pesquisa e viagens por países pelos quais o trompetista levou música e encrencas, Gavin entrevistou músicos que estiveram ao lado de Baker, produtores de shows, gerentes de gravadoras, ex-mulheres e familiares. No final, preferiu romper com todos a ter de suprimir qualquer informação. "Sei que a família dele odiou. Mas eu não teria escrito um livro honesto se a família tivesse gostado. Meu trabalho não foi para agradá-los. Meu trabalho foi contar a verdade", disse Gavin em entrevista ao JT por e-mail, de Nova York. No tijolo de 493 páginas há relatos sombrios e impressionantes sobre a frieza e a maldade de Chet com amigos, filhos e consigo mesmo. Mas também sobre a sensibilidade e doçura de Chet com os pistões de seu trompete. O mesmo homem que ensinava que improvisar era como contar uma história para crianças espancava suas mulheres, as usava para conseguir drogas, roubava o instrumento do próprio filho, abandonava a família, entregava à polícia farmacêuticos que o ajudavam a conseguir remédios proibidos para saciar suas crises de abstinência. No Brasil, Gavin entrevistou Zuza Homem de Mello para ter detalhes sobre a passagem de Baker pela primeira edição do Free Jazz Festival, em 1985. Zuza era diretor de programação e relatou ao autor o que guardava em segredo desde então. Monique Gardemberg, produtora do festival, contratou o médico Walter Almeida para acompanhar Baker em São Paulo. Sua função era fornecer uma quantidade diária de uma droga equivalente à metadona, o vício de Baker na época, para evitar os efeitos da abstinência. Baker sofreu uma overdose no quarto do hotel com drogas que conseguiu de outros fornecedores e quase morreu no Brasil. Na infância, Chet Baker sofreu com um pai alcoólatra e perdeu um dente em uma brincadeira na rua com outros meninos - anos depois perderia quase todos eles em brigas na rua, supostamente com traficantes que vinham lhe cobrar dívidas. E na música, contraditoriamente, era quase sempre um herói. Charlie Parker, de ídolo, virou fã. Stan Getz foi humilhado quando fez uma temporada de shows com ele e só ouviu aplausos sendo dirigidos a Baker. Gavin fala sobre até onde pensa que o talento de Chet Baker pode ter sido um mito. "Eu concordo que as drogas e os escândalos foram muito responsáveis por tornar Chet um mito e também por destruir sua beleza. Mas mitos e lendas não se formam sozinhos. As pessoas são fascinadas por histórias sobre artistas belos e torturados. É uma noção muito romântica. Nos últimos anos, Chet chegou a usar sua fama para manipular as pessoas. Mas, apesar disso, ele fez músicas que tocaram pessoas do mundo todo. Você não precisa saber nada sobre a vida dele para ouvir seus discos e se emocionar."

Agencia Estado,

27 de janeiro de 2003 | 12h09

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