Biografia trata Renoir e sua arte com afeto

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) é um personagem tão cativante quanto suas pinturas, que vêm encantando o público paulistano desde que o Masp inaugurou a mostra dedicada ao mestre impressionista. Graças ao livro Renoir - Um Retrato Íntimo, escrito com indisfarçável admiração pelo marchand Ambroise Vollard e que está sendo lançado agora no Brasil pela editora Unimarco, vamos pouco a pouco descobrindo como o pintor mais popular do movimento impressionista mescla uma reverência absoluta pelo antigo e pelas coisas simples com um profundo conhecimento de história da arte. Aparentemente contraditória - já que revolucionário na pintura, liberal em relação aos modos e costumes e politicamente bastante conservador -, a cativante personalidade de Renoir, que vai aos poucos sendo definida por meio de interessantes depoimentos, demonstra na verdade uma sólida coerência.Como é possível apreender dos depoimentos colhidos por Vollard ao longo de anos de convívio com o artista, enganam-se aqueles que julgam que o impressionismo é o resultado inquestionável do avanço tecnológico e das teorias sobre o uso das cores e da luz na pintura. "O que realmente queríamos, dentro dos limites de nossas habilidades, era tentar induzir os pintores, em geral, a se alinharem em torno dos mestres", afirma ele no capítulo dedicado às exposições que deram início ao movimento. E conclui atacando o marasmo que havia tomado conta da arte de sua época. "Com exceção unicamente de Delacroix, Ingres e Courbet, que haviam florescido tão miraculosamente após a Revolução, as artes plásticas tinham decaído para a maior banalidade. Todo mundo estava ocupado em copiar todo mundo e a natureza havia se perdido na confusão."A obra de Vollard agrada exatamente por sua falta de pretensão. Ao contrário de teorias sobre Renoir e o impressionismo, o que temos é um relato informal sobre um artista e sua época. Outra vantagem do trabalho é que ele é organizado em torno de temas, não necessariamente em ordem cronológica. Não se trata de uma biografia, mas da reunião de informações sobre momentos e fatos importantes de sua vida, como o início da carreira, a pintura de obras célebres como O Cabaré da Mãe Anthony, as viagens e o repúdio a tudo que é moderno. "Se não tivéssemos carros nem estradas de ferro, ou telegramas, Rodin teria de vir de diligência, nós teríamos recebido a notícia de sua vinda há um mês, a galinha teria tido tempo de engordar no galinheiro e o patê teria sido feito em casa e seria muito melhor do que a coisa enlatada que minha mulher vai trazer de Nice", comenta ele por ocasião de uma visita do escultor.Ficamos sabendo de maneira saborosa - e sobretudo irônica - as preferências do artista. Repleto de frases de efeito, o livro mostra como ele enaltece uns ("toda a arte da pintura, condensada, está no pequeno laço cor-de-rosa da Infanta Marguerita, no Louvre", diz sobre a obra de Velázquez), em detrimento de outros, mesmo que sejam mitos como Baudelaire, Flaubert - não à toa o grande poeta da modernidade que tanto lhe desagrada - e até Victor Hugo e Rembrandt. Dentre os artistas de sua época, suas preferências recaem sobre Cézanne e pouco fala de Monet, também estrela de primeira grandeza do impressionismo.Mas em nenhum momento temos a impressão de estar diante de alguém vaidoso, afetado como a maioria das pessoas que circulavam pelos salões parisienses da época (Vollard não demonstra a mesma boa vontade com Rodin, rapidamente retratado em um dos capítulos do livro como alguém orgulhoso e fútil, apesar de genial). Quase fingindo uma casualidade, o marchand-escritor mostra como os dois reagem à comparação entre sua arte e à de Victor Hugo. Enquanto Renoir rejeita a comparação por se dizer acima de tudo um clássico, Rodin não esconde a pretensão de ser equiparado a seu mais famoso retratado.Aos olhos de Vollard, Renoir é um dedicado à família, que ama o campo, casado com uma mulher simples e companheira (que lhe arruma belos arranjos de flores para que ele possa pintá-los e amamenta seus filhos, criando-os fortes e saudáveis, ao contrário das mulheres de sociedade que não podem abdicar de seus compromissos) e que acima de tudo gostava de pintar, apesar do reumatismo que o condenou por anos à cadeira de rodas e que paralisou seus dedos (no final ele pintava com os pincéis atados aos punhos).Também não teme falar de seus defeitos, lembrando em várias ocasiões como as pessoas o acusam de não saber desenhar. Ou então contando algumas experiências mal-sucedidas, como quando resolveu "secar" suas pinturas. "Eu não conhecia, nessa época, uma verdade elementar: a de que a pintura a óleo deve ser feita com óleo", brinca.Mais além das histórias de época, das curtas e inteligentes ponderações - e piadas - de Renoir sobre os mais diversos temas, Vollard se debruça sobre um interessante tema, que lhe é bastante caro: o mercado de arte. O renomado marchand francês - cujo nome chegou a batizar uma célebre série de gravuras de Picasso - conta com uma fina ironia como os colecionadores da época ludibriavam Renoir e outros artistas em busca de sua obra cada vez mais valorizada. Entre eles se destaca por exemplo um certo Mr. Chauchard que "para deixar uma derradeira impressão do valor de seus muitos milhões, dispôs em testamento que os quadros que lhe haviam custado verdadeiras fortunas deveriam ser levados à frente do cortejo fúnebre, no dia de seu enterro".Renoir não gostava de vender seus quadros. Mas os "colecionadores" eram mais espertos, até mesmo que os marchands. Para chegar até o estúdio, um deles encomendava o retrato da mulher ou de uma filha (pinturas de meninos eram, segundo Vollard, menos valorizadas) por um preço determinado. Pouco a pouco o convenciam a fazer uma obra maior ou mais elaborada, seja tirando a roupa da modelo (os nus são mais caros), seja incluindo uma criança. Em seguida, a vendiam por um valor muitas vezes superior no mercado, achando que ele não descobriria. "Não há dúvida de que tive mais sucesso do que qualquer outro pintor, durante a vida. As honrarias chovem sobre mim, vindas de todas as partes. Os artistas me cumprimentam pelo meu trabalho. Há muitas pessoas para as quais a minha posição deve parecer invejável... Mas acho que não tenho um único amigo verdadeiro!", teria comentado o pintor em um de seus últimos encontros.

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