Biografia retrata o pai dos marchands modernos

Nos ferventes anos 20, quando aEuropa tentava esquecer os fantasmas da Primeira Guerra e viviauma revolução das artes e dos costumes, os americanos -escritores e jazzmen, entre eles - iam a Paris, Londres e outrascidades para divertirem e se divertirem. Mas não apenas isso:eles também estavam ansiosos para transplantar um pouco dahistória e da sofisticação do Velho Continente para o admirávelNovo Mundo. "A Europa tinha arte de sobra; e os EUA, dinheirode sobra", resumiu um marchand de origem holandesa, JosephDuveen. A também fervente biografia Duveen - O Marchand dasVaidades, de Samuel N. Behrman (Bei, 308 págs., R$ 39), quechega às livrarias brasileiras na sexta-feira, conta a históriadesse homem que soube, como poucos, aproximar o dinheiroamericano e a arte européia.Não que o estereótipo do milionário americano grosseiro,vindo de um país onde a cultura seria secundária, sejaverdadeiro. A literatura americana já produzira Herman Melville,Henry James ou Mark Twain, e críticos como H.L. Mencken e depoisEdmund Wilson - que bebeu galões de champanhe na Paris doentreguerras - já vinham mostrando o valor dessa nova tradição.Em Nova York, uma revista como The New Yorker, escrita porcríticos, humoristas e contistas que hoje fazem parte dahistória da sofisticação, brilhava intensamente. E foi, não poracaso, na New Yorker de 1951 que o jornalista Samuel N.Behrman começou a publicar os capítulos da biografia, relançadanos EUA neste ano. Behrman escreve "newyorkerês" puro, bemcaptada pelo tradutor Renato Rezende: o texto flui com elegânciae charme, sem jamais ser superficial, e distribui mordacidades esutilezas até a última linha.Para ter uma idéia melhor de quem foi Duveen, basta daruma olhada na lista de entrevistados da biografia. É a fina florda connaissance inglesa - Kenneth Clark, Bernard Berenson, CecilBeaton, C.M. Bowra, Osbert Sitwell - misturada com milionáriosamericanos ou seus familiares. Duveen é responsável por parteimportante dos principais acervos de arte americanos. Sem ele,não existiriam da mesma forma a National Gallery de Washington edois dos museus mais refinados e aprazíveis do mundo, o Frick ea Morgan, situados em Nova York. O trabalho de Duveen eraindicar e intermediar a compra de obras de arte para "tycoons"como Andrew Mellon, William Randolph Hearst, Henry Clay Frick,J.P. Morgan, H.E. Huntington, John D. Rockfeller e outros.Certamente muitos desses não tinham "gusto" suficientenem sequer para dar diretrizes a Duveen, mas também havia os quetinham genuíno interesse por arte - especialmente Mellon, Fricke Morgan. Mesmo assim, deve-se dar graças ao espíritoprotestante saxão que impulsionava esses banqueiros eindustriais a criar fundações e museus e retribuir dessa forma àsociedade o que ela tinha lhes permitido conquistar. No Brasil,por exemplo, o que movia Assis Chateaubriand - que tinha emPietro Maria Bardi seu Duveen - não era exatamente isso, comosabem os leitores de Chatô, de Fernando Morais.Estilo - Duveen criou mesmo o estilo moderno demarchand. Esbanjador, narcisista, sedutor, convenceu os"self-made men" americanos não só a comprar arte, mas adoá-las para instituições culturais (enquanto a elite brasileiraesconde seus pequenos tesouros nos corredores mal climatizadosde suas mansões). E, claro, ganhou muito dinheiro com isso. Esteé outro trunfo seu, como mostra Behrman em passagens saborosas:à medida que se tornava mais e mais parecido com seus clientes,no estilo de vida (casas luxuosas, hábitos extravagantes, muitasviagens, etc.) e também nas doações (cedeu obras para a TateGallery de Londres, por exemplo), mais negócios era capaz defazer. Não raro comprava uma obra de arte cara sem ter ainda aquem repassar; não raro encontrava alguém e a repassava comastronômicos ágios.Mas o que faz a biografia saborosa não é apenas ahistória de um homem que enriqueceu transacionando obras-primase o texto primoroso de Behrman. É a maneira significativa comoDuveen atuava. Ele mexia com o orgulho dos que queriam ser tãoricos em espírito quanto em matéria. Ao mesmo tempo, nãotrabalhava para qualquer endinheirado. Também sabia cercar-se,como todas as pessoas bem-sucedidas: um dos capítulos do livroconta sua relação com Berenson, o B.B., um dos maiores expertsda época, e mostra como ambos ultrapassaram mais de uma vez aética do especialista em favor da conta bancária. E não tinhapudor de usar sua desenvoltura social.Numa das muitas histórias divertidas, estava na casa deum cliente quando um connaisseur pôs em dúvida a autenticidadede um Dürer adquirido por Duveen - e ele reagiu de imediato,dando uma risada e invertendo a situação: "É mesmo muitoengraçado. Sabe que alguns dos maiores experts do mundo tambémpensam assim?"

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