Tasso Marcelo/ Estadão - 16/08/2004
Tasso Marcelo/ Estadão - 16/08/2004

Biografia detalha vida e obra de Jacques Derrida

O autor, o francês Benoit Peeters, participa hoje de debate sobre seu trabalho no Centro Maria Antônia

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2013 | 02h05

O filósofo franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004) sempre foi associado à teoria da desconstrução, idealizada por ele nos anos 1960. Para isso, Derrida partiu do princípio da inexistência de uma verdade absoluta. De acordo com seu método, os textos são decompostos de tal maneira que tornam impossível qualquer "interpretação verdadeira".

Apesar de mundialmente aclamado e de ser o filósofo francês mais traduzido, era um homem frágil e atormentado e que, até o final da vida, julgava-se membro do grupo dos mal amados da universidade francesa. São essas diversas facetas que enriquecem o livro Derrida, farta biografia escrita por Benoit Peeters, lançada agora pela Civilização Brasileira.

Em sua vasta pesquisa, Peeters entrevistou centenas de pessoas, além de ser o primeiro a ter acesso ao imenso arquivo pessoal de Derrida e também à sua correspondência inédita. Esse complexo material é um dos temas da palestra que Peeters faz hoje à noite no Centro Maria Antonia. Assunto não falta - Derrida deixou uma obra generosa, que marca o pós-estruturalismo e o pós-modernismo e cuja importância talvez se ombreie apenas à de Kant. Sobre seu trabalho, Peeters - autor também de HQs, romances, documentários e curtas-metragens - respondeu, por e-mail, as seguintes questões.

Biografia em si é um conceito fundamentalmente filosófico. Entretanto, em sua última entrevista alguns meses antes de morrer, Derrida admitiu que não havia aprendido a aceitar a morte enquanto tal e, neste sentido, estava consciente de que não poderia, estritamente falando, ser definido como um filósofo. Sendo assim, como deveria ser uma biografia de Jacques Derrida para ser uma biografia derridiana?

Se alguns filósofos desprezaram o gênero biográfico, isso jamais ocorreu com Jacques Derrida. Ele era apaixonado por filósofos que atribuíram um lugar especial a sua própria vida, como Nietzsche, Kierkegaard ou Rousseau. E muitos de seus livros - como Circonfissão, O Monolinguismo do Outro ou O Animal que Logo Sou - têm um caráter nitidamente autobiográfico. Acredito que ele não ficaria chocado com o fato de escreverem sua biografia, ao contrário. Seria possível publicar algum dia uma "autobiografia fractal" propondo uma montagem dos textos autobiográficos de toda natureza publicados por Derrida: cartas, trechos de entrevistas, fragmentos diversos. Estou convicto de que isto daria uma obra fascinante. Mas enquanto biógrafo, meu papel foi absolutamente distinto.

Como assim?

Eu não queria fazer um livro à maneira de Derrida, propor uma biografia "desconstruída": isso teria me parecido um vaidade inútil. O mimetismo, tanto nesta matéria como em muitas outras, não me parece o melhor serviço que podemos prestar hoje a Derrida e à sua obra. No fim das contas, procurei menos propor uma biografia derridiana do que uma biografia de Derrida. Ao mesmo tempo, desejava inscrever o filósofo no século, mostrar como seu pensamento se enraíza nos acontecimentos da história intelectual, ou da História pura e simples como a Guerra da Argélia, e encarnar seu pensamento, inscrevê-lo em uma trajetória individual.

Por que não escreveu uma biografia intelectual contendo discussões da filosofia de Derrida?

Tentei dar um grande espaço para a "vida de pensador" que foi, em grande parte, a de Derrida, mas não creio ter escrito uma "biografia intelectual". Evidentemente, era atrás dessa bandeira cômoda que eu me abrigava ao tomar contato com a maioria das testemunhas. Mas a fórmula me aborrecia com todas as exclusões que implica: a infância, a família, o amor, a vida material. E não tardei em descobrir que o próprio Derrida considerava a ideia de "biografia intelectual" muito problemática, assim como lhe parecia aberrante a de "vida intelectual consciente" um século após a invenção da psicanálise. Evocando, por exemplo, sua exclusão do liceu de Argel em 1942 por causa das medidas antissemitas adotadas pelo regime de Vichy, Derrida explicava que, por um acontecimento como esse, era inútil querer distinguir "o biográfico e o intelectual, o biográfico não intelectual e o biográfico intelectual, o consciente e o inconsciente". Meu livro se apresenta, pois, como uma verdadeira biografia, a mais completa possível: a de um homem frágil e cordial, de um filósofo muito mais inscrito em sua época do que frequentemente se acreditava. A filosofia está muito presente, com certeza, mas nunca ao modo de uma exposição técnica. As controvérsias e conflitos tiveram um lugar imenso na vida de Derrida. Embora tenha recebido numerosos golpes, ele não se privou de aplicar alguns. Repassando as polêmicas que o opuseram a Foucault, Lévi-Strauss e aos defensores da filosofia analítica, narrando os casos Heidegger e Paul de Mani, tive a sensação de uma justificação particular da empresa biográfica. Isto porque, toda vez que toma a forma de combate, o pensamento se transforma em relato. Nisso, ao menos, a biografia de um filósofo é muito próxima da de um cientista.

Derrida escreveu muito, mas a questão é: como podemos lê-lo?

A obra tem tanta abundância que poderia desencorajar o novato. Há livros sobre a pena de morte, a hospitalidade, o segredo, o perdão, mas também sobre a história da filosofia, e eles não são redundantes em relação à sua obra. Ainda é cedo para se fazer uma ideia clara de qual será a posteridade de Derrida. A questão da transmissão é complicada, porque não há uma filosofia derridiana que se possa ensinar enquanto tal. Existe antes uma maneira de filosofar, um gesto, um estilo quase inseparável de sua pessoa. É por ser difícil fazer do Derrida sem Derrida, que seu pensamento é sem dúvida mais difícil de usar que o de Foucault ou o de Deleuze.

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