Biografia de Vianinha é revista e ampliada

Com exceção talvez de Nélson Rodrigues, nenhum artista teatral brasileiro tem atraído tão fortemente o fascínio de estudiosos como o ator e dramaturgo Oduvaldo Viana Filho (1936-1974). Sua trajetória pessoal e artística já foi tema de diversos artigos, livros e teses de doutorado. Uma das melhores publicações sobre o autor de Moço em Estado de Sítio é agora relançada - em edição revista e ampliada - pela Record: Vianinha, Cúmplice da Paixão - Uma Biografia de Oduvaldo Viana Filho (418 págs., R$ 42), do jornalista Dênis de Carvalho.Com nova capa e projeto gráfico mais atraente, o volume ganhou prefácio do escritor Alcione Araújo e quase o dobro de páginas da edição original, lançada em 1990, pela editora Nórdica. Ampliação que não se deve unicamente à diferença na diagramação. Carvalho realizou extensa pesquisa acrescentando à biografia original informações extraídas, por exemplo, dos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), recentemente abertos a consulta.Uma rápida folheada no índice bibliográfico comprova não só a ampliação da pesquisa como a atração exercida por Vianinha sobre os estudiosos. Basta verificar que boa parte da vasta produção ensaística consultada por Carvalho sobre o autor de Corpo a Corpo foi escrita nos últimos dez anos ou seja, após a edição anterior da biografia.Na abrangência da abordagem de Carvalho reside um dos méritos de Vianinha, Cúmplice da Paixão. Ao contrário de outros estudos, cujo valor está em recortar aspectos específicos, o jornalista aborda diversas facetas da curta - apenas 38 anos - porém intensa vida de Vianinha. Por meio de entrevistas, documentos, artigos e outras publicações, traça o perfil de um artista movido pelo desejo de transformar o mundo, possuidor de uma rara virtude: a capacidade quase infinita de autocriticar-se de repensar convicções pouco antes defendidas a ferro e fogo.Defensor aguerrido de suas idéias, o Vianinha que aparece no traço de Carvalho está longe do militante xiita rancoroso, mas sim o de um jovem bonito, generoso, namorador e obcecado pelo trabalho. Um homem apaixonado pelo seu ofício a ponto de ditar o segundo ato de sua obra-prima, a peça Rasga Coração, no leito do hospital pouco antes de morrer de câncer.Para melhor compreensão de seu personagem, Carvalho inicia a narrativa pelo perfil dos pais do biografado, nesse caso muito mais do que uma informação burocrática e fria. Afinal Vianinha é filho do dramaturgo Oduvaldo Viana, comunista de carteirinha, um artista que lutou, no teatro, pela eliminação da prosódia portuguesa, até então utilizada nos palcos profissionais do País.Algumas vivências de infância do Vianinha ajudam a entender a garra do futuro militante. Curiosamente, por uma dessas inversões de expectativa só possíveis no Brasil, justamente essa filiação livrará Vianinha da cadeia e dos interrogatórios do Dops. Isso porque a repressão sempre confundiu pai e filho.Nunca houve duas fichas no Dops. A ficha existente dava conta de um certo Oduvaldo Viana, um senhor que a um só tempo milita no PCB em 1945 e agita no CPC na década de 60. Neste caso a natural ignorância da polícia do Dops - que protagonizou cenas como uma ida ao teatro para prender Sófocles, o subversivo autor de alguns textos do espetáculo Liberdade, Liberdade - ganhou o reforço da negligente burocracia brasileira.Oduvaldo pai estava envolvido com a direção do que seria um estrondoso sucesso de bilheteria, um filme interpretado por Gilda de Abreu, quando sua ex-secretária e segunda mulher, Deocélia Viana, deu à luz o primeiro filho do casal no dia 4 de junho de 1936, no bairro do Humaitá, Rio de Janeiro. "Na ânsia de reiniciar os trabalhos de Bonequinha de Seda, Oduvaldo cometeu um equívoco só percebido tempos depois: registrou o filho como Oduvaldo Viana achando que, por ser seu filho, automaticamente seria Oduvaldo Viana Filho", escreve Carvalho."O escrivão não teve raciocínio tão ágil - e pai e filho ficaram com o mesmo nome para o resto da vida", conta Carvalho. Embora o ´Filho´ tenha sido informalmente acrescentado ao seu sobrenome - até mesmo pelo autor da biografia que conta essa história -, oficialmente ele nunca existiu, seja na certidão de nascimento, seja no fichário do Dops.Mesclando inteligente equilíbrio de depoimentos, artigos e documentos de época, o jornalista conduz o leitor pela atribulada e apaixonante trajetória artística, política e pessoal do dramaturgo. E traça o perfil de um militante ardoroso porém gentil, um dramaturgo capaz de criar peças com a qualidade de Mão na Luva e Papa Highirte sem jamais ter se transformado num autor de gabinete.Um homem capaz de despertar e viver grandes paixões, desde sua primeira companheira, Vera Gertel, passando pela atriz Odete Lara até sua companheira dos últimos dias, Maria Lúcia. Além, é claro, da eterna paixão pelo teatro."Vianinha tornou-se o paradigma do artista criador e intelectual consciente do Terceiro Mundo, que acreditou na arte como forma de conhecimento e a utilizou como arma para a libertação", afirma Araújo no prefácio do volume.

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