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Biografia de Lima Barreto destaca crítica social

Coleção destaca a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negra

MARCELO GALLI, Agência Estado

20 de maio de 2011 | 08h42

A produção do escritor Lima Barreto mostra o branco brasileiro na sua performance ilusória de hegemonia racial e no desenvolvimento de seus processos sutis e brutais de violência contra os não-brancos. Essa é a opinião de Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, autor de uma biografia lançada recentemente sobre o autor, em entrevista à Agência Estado. Por aquele motivo, a intelectualidade do período em que o autor viveu e a seguinte geriu mal o legado do seu trabalho, mantendo-o na invisibilidade, acrescentou.

Autor de obras fundamentais da literatura brasileira, entre elas Triste Fim de Policarpo Quaresma, Recordações do Escrivão Isaías Caminha e Clara dos Anjos, algumas destas traduzidas no exterior, além de centenas de crônicas e contos como O Homem que sabia Javanês, o mulato Barreto tem sido reabilitado desde meados do século passado.

Obras como essa biografia, que saiu pelo Selo Negro, da Summus Editorial, na coleção Retratos do Brasil Negro, que destaca a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negra, fazem parte desse movimento. Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, numa sexta-feira, na cidade do Rio de Janeiro.

Conforme Cuti, Barreto é um autor cuja obra marca um momento importante na literatura brasileira: o ponto de vista daquele que é humilhado. E, apesar da pobreza, do preconceito racial, do alcoolismo e de internações em hospício, ele foi um "intelectual digno, de uma lucidez ímpar, exemplar", lembra Cuti.

"A obra de Lima Barreto contribui até hoje para o despojamento da linguagem escrita e sua aproximação com a linguagem oral, além de incentivar a dicção literária das zonas suburbanas ou periféricas das grandes cidades, e, em especial, do contingente negro-brasileiro, de cuja literatura ele se tornou um precursor", analisa.

O livro retoma períodos de formação intelectual do autor, reflexos da vida pessoal em suas obras e a atualidade de seus textos em relação a alguns assuntos, focando na questão do racismo e preconceito e o papel do futebol na vida social do brasileiro. Porém, os textos de Barreto abordam outros temas atuais como a corrupção política, violência contra civis por parte das forças policiais, violência contra mulher, ostentação social, parcialidade da imprensa, literatos esnobes e hermetismo e feminismo.

Cuti é formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2009, ele já havia escrito um livro que abordava o trabalho de Barreto, cujo título é "A consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto", pela editora Autêntica.

O poeta negro catarinense e Barreto não chegaram a se corresponder - quando Cruz e Sousa morreu, em 1896, aquele tinha apenas 15 anos -, mas há indício de que a leitura da obra dele teria inspirado a criação do personagem Leonardo Flores, poeta presente no romance Clara dos Anjos, conta Cuti. "Ele chegou também a expressar em artigo a preocupação com o estudo da obra de Cruz e Sousa, cobrando dos amigos deste tal tarefa", acrescentou.

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