Biografia afetiva, feita de diálogos

Correspondência mostra o escritor Saul Bellow, Nobel de 1976, como um observador apaixonado, para quem os homens se apresentavam frágeis diante dos movimentos selvagens da existência

FRANCISCO QUINTEIRO PIRES, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

Saul Bellow foi um observador apaixonado. A seu ver, os homens se apresentavam frágeis diante dos movimentos selvagens da existência. A fragilidade humana foi a mãe da compaixão e do trabalho desse romancista de comportamento cíclico, como mostra Saul Bellow: Letters. "Há em toda a minha vida um padrão recorrente: recuperar as forças a partir de uma posição de extrema fraqueza."

Editado pelo ensaísta Benjamin Taylor, Letters reúne 708 cartas escritas por Saul Bellow (1915-2005) durante quase 73 anos. O livro é a autobiografia que o ganhador do Nobel de 1976 nunca escreveu. Bellow se correspondeu com quatro gerações. Os destinatários eram variados como os detalhes ficcionais de seus romances: dos aspirantes a escritor, passando por ficcionistas influentes, aos fãs de sanidade questionável. O tom das cartas é intenso, flutua entre o jocoso e o dramático. O conteúdo revela a coragem de divulgar a verdade. "Sou incapaz de esconder o que penso", escreveu, afirmando possuir força suficiente para aguentar as consequências dessa incapacidade.

O escritor norte-americano Philip Roth leu Letters "com voracidade". Em três noites Roth mergulhou nas cartas do amigo e admirador, com o qual compartilhou "um amor pueril pela literatura", além da ascendência judaica. Segundo Bellow, existiram poucas pessoas para as quais podia ser tão aberto quanto era para Roth. "Sempre estou metido em situações de caos e você representa para mim o que há de essencial", declarou em carta de setembro de 1998.

Sem hesitar, Bellow expôs para Roth afetos melosos e sentimentos mesquinhos. Em missiva de janeiro de 1984, reclamou da entrevista para uma jovem repórter da revista People. "Ela inverteu minhas declarações, cortando os elogios e fazendo tudo o que disse soar como repúdio ou denúncia." Bellow lamentou o fato de a entrevista não ter mencionado que Roth é para ele "o melhor escritor" dos EUA em atividade. No fim destilou o humor ácido pelo qual se tornou conhecido: "Desconfio que não há nada que possamos fazer com os jornalistas; podemos apenas desejar que morram como as moscas morrem no fim de agosto."

A intolerância com os críticos literários é revelada por diferentes mensagens. Em carta para o contista John Cheever, datada de maio de 1978, Bellow recomenda escritores para premiação, mas se mostra implacável com os juízes da literatura. "Não existem críticos que posso indicar a não ser para a crucificação." Por isso soa até ameno Bellow ter tachado de "pedante e insosso" Anthony West, crítico da New Yorker que resenhou o romance As Aventuras de Augie March (1953). O comentário está em carta de setembro de 1953 endereçada para o editor da influente revista.

Som e fúria. A firmeza de caráter fustigou até um prêmio Nobel, o norte-americano William Faulkner. Bellow respondeu duramente a uma solicitação do autor de Som e Fúria para apoiar a libertação de Ezra Pound, poeta norte-americano conhecido pelo antissemitismo. "Você me diz para apoiar o enaltecimento de um homem que pregou a destruição dos meus irmãos de sangue?", escreveu Bellow em carta de janeiro de 1956. "O que me choca é você e o sr. Steinbeck, que há anos lidam com palavras, falharem para entender o significado das afirmações brutais e boçais de Ezra", completou. Em seguida afirmou que os EUA foram muito complacentes quando reconheceram a insanidade do poeta e o colocaram fora de circulação.

Embora tenha defendido as raízes judaicas e desafiado a crença do establishment literário de que um filho de imigrantes judeus não saberia escrever em inglês, Bellow não pode ser considerado um escritor judeu, segundo Benjamim Taylor, organizador de Letters. Em palestra recente no instituto 92nd Street Y, em Manhattan, Nova York, Taylor afirmou ser Saul Bellow, antes de tudo, um escritor norte-americano que trouxe para os seus romances a linguagem viva e livre das ruas. A ironia, lembra Taylor, é que o maior romancista de uma geração, capaz de apresentar em detalhes a vida urbana norte-americana, nasceu no Canadá. De fato, prestes a completar 30 anos, Bellow se tornou cidadão dos EUA - a sua família mudou-se de Montreal para Chicago em 4 julho de 1924, dia da independência norte-americana. Na infância, o autor de Henderson, O Rei da Chuva (1958) aprendeu a falar francês nas ruas e iídiche em casa. Daí a origem da visão aguda para a pluralidade social, retratada em romances como As Aventuras de Augie March.

Ganhador do Harold Ribalow Prize, Benjamin Taylor refuta a noção reducionista de que o conhecimento livresco de Saul Bellow, um leitor assistemático, o teria transformado em um romancista de ideias. Para o editor, Bellow tinha tesão pela vida e apreço pela abundância de detalhes. Ao misturar a leitura de Shakespeare, Nietzsche, Freud, Marx, Conrad, Flaubert, Balzac, Dickens e Dostoievski com a observação direta do cotidiano urbano, o romancista inventou personagens de mente complexa e painéis sociais ambiciosos, portadores de uma reprodução plural da realidade. Um trabalho que será melhor se realizado com o cuidado de conter o derramamento sentimental. Em carta de 1998 para Philip Roth, Bellow falou da necessidade de criar certa distância entre autor e personagem. "As paixões não podem invadir com tudo a ficção." Ele admitiu ter cometido esse "pecado" em Herzog (1964), romance em que o protagonista Moses Herzog escreve cartas para extravasar a sua frustração como gênio que não consegue entender o que acontece após ser traído pela mulher com o melhor amigo.

Para o escritor Bernard Malamud, em carta dos anos 1950, Bellow afirma ser um romance igual a uma carta. "Ambos devem ser livres, abranger um grande espaço, ter reviravoltas, e correr o risco de morrer ou desmoronar." As missivas resumem o autor de As Aventuras de Augie March. Quando descreveu o comportamento de Herzog, Philip Roth disse algo que valeria também para Bellow. "As cartas são uma demonstração de sua intensidade; elas fornecem o palco para o seu teatro intelectual, o espetáculo com um único artista em que ele corre menos risco de fazer papel de bobo." De fato, Saul Bellow criou com as palavras um universo intenso e compassivo para evitar que o caos o soterrasse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.