Bille August e seu 'Trem' filosófico

Diretor dinamarquês fala da adaptação do romance de Pascal Mercier, atração confirmada da 37ª Mostra de SP

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2013 | 02h16

Perguntem a nove entre dez críticos e eles talvez torçam o nariz à simples menção do nome de Bille August. Embora seja um dos diretores mais premiados do mundo - com o Oscar, Globo de Ouro e duas Palmas de Ouro -, o cineasta dinamarquês de 65 anos tem feito filmes que muitos definem como novelões - narrativos e tradicionais. O mais recente deles é O Último Trem para Lisboa, que adaptou do romance de Pascal Mercier, editado no Brasil pela Record. O filme passou no Festival de Berlim, em fevereiro, e agora está sendo anunciado como uma das atrações da 37.ª Mostra de Cinema, que começa daqui a pouco mais de um mês.

Serão muitas as atrações do evento que deve se desenrolar entre 18 e 31 de outubro, e é bem provável que surjam coisas muito melhores que o 'trem' de August, mas você pode estar certo de uma coisa: poucas histórias serão mais belas que a contada por Mercier em seu livro filosófico, e mesmo se não gostar muito da adaptação de August você dificilmente poderá dizer que ele trai o escritor. Existem histórias tão apaixonantes que só contá-las direito já é suficiente para que o público se dê conta de sua grandeza. É um pouco o que ocorre com a do livro de Mercier.

Com modéstia, numa entrevista por telefone, August disse que seu maior esforço foi para não estragar o que já é bom. O diretor conversou com a reportagem ao chegar em casa, depois de quase 12 horas de voo desde Nova York. Inclusive, pediu ao repórter meia horinha para se recompor. Explicou que continua baseado na Dinamarca porque tem filhos em idade escolar, em Copenhague, mas passa boa parte do tempo nos EUA, ou em qualquer outro lugar em que esteja filmando. Ele acaba de concluir novo filme, em Chicago. Contou que permaneceu bom tempo em Lisboa.

"A cidade não fornece apenas o cenário, ela faz parte do mistério do livro e do filme. Seria tirar a graça tentar transpor essa história para qualquer outro lugar." Logo na abertura, o protagonista, o professor de grego e latim Raimund Gregorius, salva uma mulher que está para se jogar de uma ponte de Berna. Ela fala uma língua estranha, mas não totalmente desconhecida para ele. Diz que é "português". Some, não sem antes deixar Gregorius de posse de uma pista. Ele toma o trem para Lisboa e se enreda na história de um certo Amadeu Inácio de Almeida Prado, médico que se intitulava 'ourives das palavras' e foi um tenaz resistente à ditadura de Salazar, em Portugal.

Na entrevista (leia abaixo), August explica que embora a política - a ditadura chilena - também estivesse em A Casa dos Espíritos, que adaptou de Isabel Allende, o drama humano, mais que o engajamento numa causa, foi o que o mobilizou, em ambos os casos. "São histórias muito bonitas. Dão sentido à própria existência humana. Merecem ser reproduzidas em outras mídias." Não foi fácil concentrar uma narrativa que lida com muitos personagens, em diferentes tempos e espaços. Passado e presente, e também aforismos e intervenções filosóficas e literárias, porque Mercier bebe na fonte de Montaigne e Fernando Pessoa, o do Livro do Desassossego.

O importante é que August conseguiu mobilizar um elenco de grandes nomes e que a experiência de Almeida Prado sob Salazar termina por inspirar Gregorius, conduzindo-o a uma experiência transformadora da própria vida. August deve sua fama basicamente a dois filmes - Pelle, o Conquistador e As Melhores Intenções, que lhe valeram suas duas Palmas. O segundo tinha roteiro de ninguém menos que Ingmar Bergman. E todos, incluindo O Último Trem, narram histórias que se desenrolam no tempo. "Meu sonho de narrador é fazer com que o público compartilhe essas grandes histórias comigo."

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