"Bilhete" emociona e faz valer o texto dramático

É noite, o lugar é uma estação emum ponto qualquer de uma linha ferroviária e as personagens sãoduas mulheres de gerações diferentes em um encontro casual. Damais moça, sabe-se que vem da cidade grande e está de passagem.Quanto à mulher velha, mais loquaz do que a sua interlocutora,está há três décadas na cidadezinha à beira da estação. Partindodessa indeterminação temporal e espacial, a peça Bilhete, deMarici Salomão, inicia um movimento dramático de superposiçãodas duas personagens.O diálogo, que de início se apóia no reconhecimento daspersonagens por meio da definição dos contrastes, conclui-se aofinal como um jogo de interação. O velho e o novo, a ânsia departir e o desejo de enraizar-se, o fio de esperança e aresignação são, dentro dessa concepção, aspectos conflitantes deum único ser, ou de uma única existência. Em vez dedesprender-se uma da outra ou de se distinguir por meio deoposições crescentes, as figuras convergem ao final para umponto fixo.A idéia de que na arena da psique individual há matériasuficiente para produzir a faísca dramática, faz parte datradição da dramaturgia ocidental. Não é preciso opor o homem àsua circunstância para forjar conflitos. Basta romper uma frestada psique para que se manifestem os impulsos contraditórios, asencarnações fantasmagóricas dos desejos, as vastas paisagensintuídas e sonhadas. É esse o campo que a peça de Marici Salomãoprocura explorar através da indeterminação do tempo, do espaço edas circunstâncias concretas.Todos os elementos de composição do texto são sutilmentedespojados de verossimilhança: a luz é inconstante, a estação detrem tem sinais de ter sido desativada há muito tempo e mesmo acaracterização da mulher jovem, de chapéu e maleta, sugere aiconografia das viagens imaginárias. Somam-se a essescomponentes as referências a temores vagos como a regiãoselvagem no prolongamento da via férrea e as revoadas deinsetos. Não há fatos, mas rumores, ilações, suspeitas que amais velha semeia, tentando impedir a partida da outra.Mas é na caracterização das falas que se reconhece asimbiose das personagens. O modo de expressão não distinguegerações e a fala metropolitana se assemelha à fala interiorana.Ambas se aproximam pela sintaxe e pelo vocabulário, emborainvoquem cosmogonias diversas. Nas reações da moça há frágeistentativas de reduzir o misterioso e simbólico a uma dimensãocotidiana, enquanto sua interlocutora reveste de simbolismo ascircunstâncias e a natureza. São, contudo, concepções de mundoque partem de um mesmo ponto, aparentemente da mesmaconsciência.A impressão final que resulta desse encontro bemarticulado, econômico e sóbrio na expressão dos tumultos da vidainterior é de controle. Alguma coisa é bem explicada, ou seja, omodo com as vozes interiores se articulam e por fim seharmonizam produzindo um resultado existencial. Uma vez que setrata de uma oposição binária, somam-se, com precisão matemática, todos os fatores mobilizados na feitura da peça. Há uma lógicateatral aplicada sobre o tumulto psíquico e a evidência desseartifício faz com que o texto se torne um enigma decifrável.A virtude ponderável da sobriedade garante o interesseda peça, mas talvez faça falta, para ressonância poética, asugestão de um ponto de partida mais instável, em que, apesar doesforço da dramatização artística, permanecem em estado de fusãoconteúdos imponderáveis. Somos, a bem da verdade, mais de 300, ealgo dessa multiplicidade, escapando à rede da boa ordemdramatúrgica, pode funcionar como um elo de identificação com asfiguras em cena.Sob a direção de Celso Frateschi, o espetáculo equilibraas intersecções entre a atmosfera onírica e o tom sóbrio ecoloquial do confronto. O uso das luzes, o trato cenográfico, osfigurinos e o som são concebidos para sugerir a irrealidade doencontro, enquanto a postura das atrizes e o tom suave docolóquio sugerem proximidade com o realismo.O realismo arranhado no início pela ênfase nadecrepitude da Velha (interpretada por Nádia de Lion) e nainfantilidade da Moça, representada por Rennata Airoldi. Aolongo do espetáculo, esse exagero inicial se dissolve, mas énotável nas primeiras falas. Pode ser que a intenção seja a decriar uma similitude gradual entre as duas personagens para que,ao final, se aproximem por meio da coincidência de faixasetárias. De qualquer modo, a acentuação da idade avançada, feitacom recursos exteriores, acaba produzindo um resultado farsesco.E é preciso considerar que a proposta do texto é centrar oconflito em uma mulher madura e não em uma jovenzinha comevidentes resquícios da infância na voz e nos gestos.Alguns acréscimos ao simbolismo, como a exposição defiguras feita pela mulher mais velha e um dramático pedaço depapel picotado e jogado ao vento são efeitos dispensáveis em umbom espetáculo que define o seu tom por meio da economia derecursos visuais e interpretativos e pela intenção de fazervaler o texto dramático.Bilhete. Drama. De Marici Salomão. DireçãoCelso Frateschi. Duração: 50 minutos. Sexta e sábado, às 21horas; domingo, às 20 horas. R$ 10,00. Centro Cultural São Paulo- Sala Paulo Emílio Salles Gomes. Rua Vergueiro, 1.000, em SãoPaulo, tel. (11) 3277-3611. Até 2/3.

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