Bienal trégua na crise

30ª edição da mostra, que termina domingo, já recebeu 470 mil visitantes, apostando numa vertente mais discreta e silenciosa

MARIA HIRSZMAN, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h10

A 30.ª Bienal de São Paulo, que encerrará suas portas domingo e recebeu 470 mil visitantes até sexta, parece ter trazido alento à prolongada crise da instituição, que, em alguns momentos, pôs em questão não apenas a existência da Fundação Bienal como também a viabilidade de uma mostra nesses moldes nos dias atuais. Em vez de buscar concorrer com feiras e outras bienais que disputam a atenção do público e do mercado em todo o mundo, a curadoria apostou num caminho mais discreto e na contramão dos grandes efeitos de público. Poucas são as figuras de destaque - dentre as quais se pode citar a centralidade da obra de Arthur Bispo do Rosário e a grandiosidade do amplo conjunto de retratos do alemão August Sander -, em contraposição a um número grande de pequenas e agradáveis surpresas ao longo do passeio.

São bons momentos que não marcam nem pelo choque, nem pela novidade, mas sim por colocar o espectador um pouco mais próximo do universo criativo do artista, por mostrar que uma pequena ideia ou obsessão construtiva pode render um resultado visualmente interessante e poeticamente instigante. É o caso, por exemplo, do conjunto de desenhos geométricos em aquarela do artista espanhol residente no Brasil Daniel Steegmann Mangrané, que atraiu a cobiça de um visitante mal-intencionado que furtou um dos papéis, obrigando a colocação de um vidro sobre as obras e sacrificando seu caráter doméstico, de intimidade com o público; da poesia gravada sobre uma longa fita moebius dourada pelo grego Athanasios Argianas ou da instalação sedutora de Icaro Zorbar, com seu ambiente fantástico feito de sucata tecnológica e fascínio pela ciência, luz e sombra.

Estes exemplos de intervenções, que se enquadram bem no critério de seleção fornecido pelo título A Iminência das Poéticas, se situam todos no térreo e primeiro andar, mas é possível encontrar ecos desse tipo de experimentação - menos formal e mais poética - ao longo de todo o pavilhão, convivendo de forma bastante livre com as representações de figuras emblemáticas da arte do século 20, como Allan Kaprow, Gego ou ainda Waldemar Cordeiro. Este último, infelizmente, está presente com uma das mais fracas representações da mostra, com obras e um espaço que nem de perto são suficientes para revelar sua importância fundamental para a arte brasileira. Outro desacerto parece ter sido a escolha de alemão Franz Erhard Walther para ocupar o vão central do prédio. O espaço mítico, que costuma atrair as atenções, desta vez pareceu um tanto desperdiçado ao servir de palco para ações esporádicas do público.

Mesmo com certa ênfase no campo da performance (destaque para os pioneiros como Tehching Hsieh, Bas Jan Ader...) e fotografia, pode-se dizer que a Bienal buscou equilibrar as diferentes linguagens. O vídeo, tão valorizado em edições anteriores, parece ceder espaço à pintura, representada por obras relevantes como as do francês Bernard Frize (um exemplo claro de como os espaços mais generosos foram benéficos à mostra), os brasileiros Lucia Laguna e Eduardo Berliner, o americano John Zurier e o venezuelano Juan Iribarren, que estabelece interessante diálogo entre tela e fotografia. Outro aspecto positivo do projeto curatorial de Luis Pérez-Oramas foi contemplar um grande número de artistas pouco vistos por aqui e, dentro desse conjunto relativamente inédito, o fato de privilegiar a produção brasileira e sul-americana, sem estabelecer, no entanto, uma lógica de compartimentação geopolítica.

Ao abrir amplos espaços para uma geração mais jovem, que nunca tinha estado numa Bienal, como o fotógrafo paraense Alberto Bitar com suas densas paisagens, ou Cadu, com conjunto amplo de trabalhos em que o acaso, a norma e a plástica se combinam de forma potente, Oramas mostra que o significado da Bienal vai além da realização correta de uma mostra de arte contemporânea de ponta: ela tem o papel de tentar ressignificar a produção artística do nosso tempo com ótica própria e questionadora.

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