Bienal se consolida com foco na cidade

Realizada em Santos, a mostra, na 7ª edição, recebeu 21 espetáculos, debates e workshops

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2011 | 00h00

Foram 21 espetáculos (em 34 apresentações), 8 intervenções (em 31 manifestações), 5 videoinstalações, dois Encontros Provocativos (conversa de um artista e um pesquisador com o público), mesa de debates, exibição de vídeos e filme, lançamento de livro e workshops. De 2 a 8 de setembro, a 7.ª Bienal Sesc de Dança, que ocorre em Santos, São Paulo, exibiu 33 companhias de diferentes locais do Brasil e também da Argentina, do Uruguai, Senegal, da Bélgica e França.

O modelão é o do festival que organiza atividades em torno dos espetáculos que seleciona. Desta vez, foram mais de 400 obras inscritas. A ótima proposta de usar espaços históricos da cidade, que marca esta Bienal desde 1998, quando se iniciou, foi mantida. A apresentação de atividades ao ar livre também. São dois tipos de uso de espaço e de relacionamento com a cidade de muita complexidade, e ainda pouco explorados nas suas especificidades. Talvez tenha chegado o momento de priorizar a sua qualificação, dado o potencial nelas antevisto. A Bienal de Santos deve colaborar para o avanço dessa discussão, já em curso na área da dança em outros festivais, para reposicionar a Bienal na sua cidade e no conjunto dos festivais do Brasil, desenhando um perfil mais claro para a sua inserção nesse quadro.

A 7.ª Bienal foi lançada no dia 9 de agosto, no teatro do Sesc Santos, com Um a Um!, fruto da residência de nove dias realizada por dez bailarinos brasileiros e dois bailarinos ligados à companhia belga Les Ballets C de la B. Esse mesmo trabalho foi reapresentado às 12h30, na Praça Mauá, no dia da sua inauguração oficial, 2 de setembro. Mas a abertura nobre, a que ocorre no teatro, ficou com o Les Ballets C de la B, da Bélgica, reproduzindo aquele hábito colonial, ainda tão presente entre nós, de valorizar mais o produto estrangeiro. O convite para a abertura de um evento desse porte constitui uma distinção, todos sabemos. Consultado pelo Estado, após um dos espetáculos da Bienal, sobre a razão dessa escolha, e não a de uma companhia brasileira, Juliano Azevedo, responsável pela área da dança no Sesc São Paulo, informou que não se tratou de opção, mas de uma condição imposta pelas datas possíveis para as cias. estrangeiras poderem participar.

O fato de uma Bienal ficar refém da agenda das companhias que deseja apresentar evidencia a necessidade de mais antecedência para seu planejamento.

A inexistência da figura de um diretor ou de uma equipe permanente responsável pela Bienal também contribui para que ela deixe escorrer toda a força simbólica de sua nomeação. Vendo-se ainda como um festival que ocorre a cada dois anos e sendo montado em um prazo apertado demais, abre mão da possibilidade de se transformar em um marco regulatório importante no cenário nacional, podendo vir, inclusive, a balizar os próprios festivais. Por enquanto, atua como um evento de distribuição de produtos diversos, que juntou em uma mesma cesta com critérios outros que não somente os curatoriais.

Embora sem apoio de uma pesquisa formal, a instituição anuncia uma conquista expressiva e que merece mesmo ser comemorada: a população local começou a participar. Segundo informação de Marcos Villas, também em entrevista ao Estado durante a Bienal, foi perceptível uma mudança no público, atribuída às estratégias de comunicação agora adotadas. Villas foi um dos três curadores, ao lado de Liliane, a responsável pela dança na unidade de Santos, e de Andrea Bardawil, artista da dança de Fortaleza - cujos nomes não foram publicados nos dois programas (português e inglês). Pela primeira vez, foi produzido um programa em inglês, em tiragem reduzida e mais completo do que o lançado em português, com o objetivo de abrir caminhos para as companhias brasileiras no exterior.

Em 2011, a Bienal investiu pesadamente em comunicação (outdoors, cubos espalhados pela cidade, anúncios em toda a mídia) e, satisfeita com o resultado, anuncia que vai dedicar o próximo ano para consolidar os avanços conquistados, focando a dança da cidade - um bom augúrio para a necessidade de a Bienal existir como projeto permanente. Afinal, ela se consolida: foram consumidos cerca de 8 mil ingressos para os espetáculos em espaços fechados e atingidas em torno de 70 mil pessoas com as ações ao ar livre, segundo informações de Villas.

É louvável que o Sesc abrigue um evento da importância da Bienal de Dança. E mais louvável ainda será se abrir espaço para os ajustes necessários para que ela venha a ocupar o papel que lhe cabe no nosso país.

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