Bienal reúne escritores latinos em debate político acalorado

"Nossas democracias são relativas, precárias", diz o jornalista colombiano Daniel Samper Pizano

Roberta Pennafort, do Estadão,

14 de setembro de 2007 | 13h26

A América Latina pós-redemocratização é melhor ou pior do que a das ditaduras militares? A questão gerou muita discussão na primeira sessão da Esquina do Leitor, na noite de quinta-feira. O novo espaço da Bienal do Livro do Rio recebeu dois escritores argentinos, Rodolfo Enrique Fogwill e Santiago Vega, um colombiano, Daniel Samper Pizano, e um brasileiro, Alfredo Sirkis. Autor de Os Carbonários (1978), em que conta sua experiência na esquerda armada, Sirkis levantou a bola, ao contar que muitos jovens o abordam para dizer que gostariam de ter passado pelos anos de chumbo. "Eles falam: 'Que inveja eu tenho de você! Que frustração de não ter vivido aquele tempo!' Eu fico com vontade de chorar", revelou.  "Com todos os problemas que temos hoje, é melhor do que aquela opressão terrível". Sirkis relembrou a célebre frase do ex-primeiro ministro britânicoWiston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as demais." Fogwill rebateu: "Estamos piores. Mas não pelo fracasso da luta armada, o êxito do imperialismo ou a corrupção de Kirchner ou Lula, e sim por um movimento natural do mundo. Nesses 40 anos, 30% da população do campo foi para as cidades e em 2035 serão 85%".  O sociólogo foi além: disse que prefere "o pensamento mais reacionário" ao modo de vida que tem como ideais "a acumulação de bens e a satisfação sexual". O argentino é autor de Os pichiciegos - Malvinas: uma batalha subterrânea, que está sendo lançado na bienal (nos anos 80, quando Brasil e Argentina ainda viviam sob regimes ditatoriais, o livro já havia circulado clandestinamente por aqui.) O jornalista colombiano Daniel Samper Pizano - que escreveu Impávido Colosso, ambientado no Brasil dos militares e do milagre econômico - lembrou que a dúvida que se tinha três décadas atrás, quanto à possibilidade de sobrevivência dos países latinos às ditaduras, foi substituída por outra, talvez ainda mais complexa: poderá a América Latina sobreviver à democracia? "Temos regimes muito melhores do que a ditadura, mas não é democracia; isso é equivocado. Nossas democracias são relativas, precárias", afirmou, para depois citar entraves como a influência do poder Executivo no Judiciário e Legislativo, a corrupção, a falta de respeito aos direitos humanos, as desigualdades sociais e a violência. Bem mais jovem do que os colegas, o argentino Santiago Vega absteve-se do debate e apresentou o projeto que toca em seu país: de publicação de livros de escritores latinos com capas de papelão. O material é recolhido por catadores nas ruas. Seu Coisas de Negros, o primeiro no Brasil e assinado com o pseudônimo de Washington Cucurto, é outro lançamento da bienal.

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