Div
Div

Bienal promove seminário para discutir o papel do criador na grande cidade

Fundação e Arq.Futuro trazem a SP diretores de instituições como a Tate Modern para discutir a transformação urbana pela cultura

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2014 | 03h00

Quando ouvia falar em cultura, o chefe da Gestapo, Hermann Göring, puxava automaticamente seu revólver. Não só ele, mas o personagem que inspirou sua frase, tirada da peça nazista Schlageter, de Hanns Johst, encenada em 1933, ano da ascensão de Hitler ao poder. Governos totalitários, como se sabe, detestam cultura. E perdem com isso. No mundo contemporâneo, pelo menos nos países democráticos, ela é a principal ferramenta de regeneração urbana, como prova uma das mais sólidas instituições culturais do Reino Unido, a Tate Modern, que há 13 anos deixou de ser uma velha usina para virar um museu que atrai 5 milhões de visitantes por ano, inspirando uma série de investimentos em Londres.

Para discutir a transformação das cidades por meio da economia criativa, a Fundação Bienal e o Arq.Futuro promovem nesta sexta-feira, 5, das 9 às 19h, no auditório da Bienal, um seminário com nomes ligados a instituições fortes, Cidades Performáticas: Uma Discussão sobre Arte, Arquitetura e Espaço Público. A Tate Modern é uma delas. Seu diretor de Regeneração e Parcerias Comunitárias, Donald Hyslop, contou ao Caderno 2 como desenvolveu um programa de revitalização urbana com foco na cultura, que mudou a cara de Londres. E de Liverpool. 

Participam do evento outros representantes de instituições igualmente respeitadas, como o arquiteto português Pedro Gadanho, curador do Departamento de Arquitetura e Design do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), que, a exemplo de Hyslop e da economista e professora Lídia Goldenstein, diretora da Fundação Bienal que abre o evento, conversaram com o Caderno 2 sobre a criatividade como motor da regeneração urbana. Eles também comentaram estratégias que estimulam a economia criativa, como a da Tate Modern.

A economista Lídia Goldenstein reconhece o Reino Unido como a “capital global do debate sobre economia criativa”, mas teme que, no Brasil, o termo “mais pareça uma caricatura”, associado ao artesanato e confundido com políticas sociais populistas para as populações de baixa renda. Com a crise de 2008, lembra a professora, analistas estrangeiros passaram a recomendar investimentos no setor cultural como alternativa, mas ela nem sequer foi considerada no país de Macunaíma. O design, as políticas de inovação e os projetos de revitalização urbana são abstrações no Brasil, que, segundo ela, “ainda pensa a economia como se pensava nos anos 1950”.

Nossa economia, diz a professora, despreza a estratégia baseada na importância da cultura como alavanca do crescimento, do turismo, das exportações e da geração de empregos. “Não olhamos para o que acontece no mundo, onde a cultura e a criatividade não são consideradas marginais, secundárias no plano macroeconômico.” Em outras palavras: quando ouvem falar em política cultural, as autoridades governamentais brasileiras não sacam o revólver, como Goering, mas disparam o velho discurso autoritário. Desprezam a sinergia, a parceria com entidades privadas e não ouvem a comunidade para reinventar as cidades e replicar exemplos como o da Tate Modern, que, aliás, promoveu internacionalmente mais artistas brasileiros (Cildo Meireles e Mira Schendel, entre outros) que os museus nacionais.

“Considerando o que aconteceu nos últimos 15 anos, quando a antiga usina Bankside começou a ser reformada para virar a Tate Modern, fica claro que ela é muito mais que um museu”, diz o diretor Donald Hyslop, um dos autores de uma série de livros sobre economia criativa lançada pelo British Council no seminário. A Tate ocupa, sim, o centro de uma estratégia que faz uso de organizações criativas para revitalizar a área central de Londres. O projeto, revela Hyslop, é sustentado por alianças entre as esferas pública, privada e política, que tentam encontrar um ponto de equilíbrio entre as necessidades das comunidades locais, os trabalhadores e turistas.

Ele reconhece que, embora a Tate Modern e o Guggenheim tenham inspirado uma série de investimentos de capital, trouxeram, por outro lado, frutos indesejáveis como o comércio ilegal e a mendicância, atraída pelo impressionante número de turistas (são 13 milhões de visitantes por ano no quarteirão da Tate Modern, segundo ele). “No entanto, devemos considerar que ela criou mais de 2 mil empregos diretos, 32 mil indiretos, além de estimular a construção de imóveis residenciais e comerciais na área, fazendo dobrar a população e o número de trabalhadores no local.” E, dado relevante: tem um impacto de £ 900 milhões na economia londrina.

“Não poderia falar da experiência do Guggenheim de Bilbao, se ele continua ou não a promover a regeneração local, mas trata-se de um projeto icônico, que mudou a feição da cidade e a destinação dos turistas”, avalia Hyslop, garantindo que a Tate Modern não tem a menor intenção de se instalar no Brasil, ao contrário do Guggenheim. Tampouco o de usar seus museus para promover exposições do tipo blockbuster - as que vieram para cá, como a de Mira Schendel, são culturalmente relevantes. “A revitalização movida pela cultura vai além dos prédios dos museus, ela tem de romper com antigos mecanismos, como os planos diretores das cidades, para trabalhar com parcerias mais sólidas, como é o caso da associação dos moradores de Bankside, que discute conosco as formas de uso da área.”

O curador de arquitetura e design do MoMA de Nova York, Pedro Gadanho, que acaba de inaugurar no museu americano a exposição Uneven Growth, sobre urbanismo tátil em megacidades, pensa igualmente nos efeitos positivos que provoca a reinvenção do espaço urbano quando o foco não é o simples delírio arquitetônico, mas a inclusão comunitária nos projetos das instituições. “O MoMA, particularmente, tem um histórico, desde a sua criação, em 1929, de difundir a arquitetura moderna, atraindo a população local para o convívio com seu acervo, a partir mesmo da abertura de seu jardim logo pela manhã.” O museu nova-iorquino, revela, guarda mais de 30 mil peças dos arquitetos Mies van der Rohe e outras tantas de Frank Lloyd Wright, dois vetores da modernidade arquitetônica que inspiraram a criação de museus referenciais (a Galeria Nacional de Berlim e o Guggenheim de Nova York, respectivamente). E ninguém duvida que a arquitetura de ambos trouxe benefícios econômicos para ambas as metrópoles.

CIDADES PERFORMÁTICAS

Fundação Bienal de São Paulo. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera, portão 3. Hoje, 9h/19h. Grátis (lugares limitados).

Mais conteúdo sobre:
CidadesSão PauloArquitetura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.