Bienal em Nova York revela pessimismo do presente

A Bienal do Museu Whitney, de Nova York, aberta até o dia 30 de maio, revela que não existe nada de realmente novo no front da arte contemporânea.Considerada a mais precisa bússola da arte contemporânea, a primeira Bienal deste milênio é um retrato fiel - e um tanto desnorteado - dos dilemas atuais.Para o trio de curadores da Bienal - Chrissie Iles, Shamim Momin e Debra Singer - o otimismo dos anos 90 deu lugar a uma nova atitude artística, pessimista e ansiosa depois dos ataques de 11 de setembro de 2001."O atual clima econômico, social e artístico é dominado pela ansiedade, medo e incerteza sobre a capacidade dessa geração superar os difíceis desafios impostos por essa nova época", afirmam eles no catálogo da exposição.Perfeição pop - Para dar conta da imensa diversidade de temas e atitudes da arte contemporânea, os curadores resolveram escalar 108 artistas de três diferentes gerações.Dos anos 60, comparecem dois nomes consagrados: o minimalista Mel Bochner e o pop David Hochney.Investindo na própria linguagem como tema, Bochner apresenta uma série de pinturas em que trabalha com letras coloridas. Pintadas em tons vibrantes contra o fundo negro, suas telas confundem o espectador com seu aparente otimismo formal. É o caso, por exemplo, da obra Nothing ("Nada"), que traz inscrições niilistas, como "negation" (negação), "non-existence" (não-existência) e "not-being" (não-ser) em letras impecavelmente pintadas.A mesma precisão aparece nas pinturas e aquarelas de Hochney. Na aquarela L.A. Studio ("Estúdio em Los Angeles), por exemplo, Hochney retrata seu local de trabalho com uma gama de tons pastéis agradáveis ao olhar.Mas a limpeza, organização e o vazio do estúdio - inspirado na obra do holandês Van Gogh - evocam a frieza nada inspirada de um consultório médico.Paz universal - Já entre os artistas revelados nos anos 80, um dos trabalhos mais pungentes é a vídeo-instalação Count on Us ("Conte Conosco"), de Marina Abramovic.Num quarto escuro, quatro telões trazem grupos de crianças cantando canções de paz e louvor à ONU.A ironia da história está na roupa do maestro, vestido com uma malha colante negra que o retrata como um esqueleto, numa evidente associação com a ameaça da guerra que assombra o mundo desde setembro de 2001. Mas além de denúncia e pessimismo, a Bienal também investe na frivolidade que marcou os anos 90. Talvez o melhor exemplo disso não esteja dentro do Museu, e, sim, na fronteira norte do Central Park.Como parte da Bienal, o parque abriga uma série de esculturas, como Daddies Bighead, ("Papais Cabeça-Grande"), um boneco inflável de plástico de autoria de Paul McCarthy, também revelado nos anos 80. Tendo a forma de uma garrafa como corpo, olhos redondos e um nariz de cenoura, o boneco, de 15 metros de altura, não passa de uma tolice gigantesca. Revelações - Entre novos nomes, uma boa surpresa é a desenhista Julie Mehretu, que trata da saturação tecnológica e consumista da vida atual.Através de desenhos coloridos na fronteira da abstração, como Empirical Construction ("Construção Empírica"), a desenhista retrata uma cidade assombrada por uma nuvem de formas geométricas que tanto podem ser sucata tecnológica quanto apenas inocentes formas geométricas. Do Brasil, a Bienal contará, entre os dias 17 de abril e 4 de maio, com a performance do grupo de patinadores e músicos Assume Vivid Astro Focus, que montará um colorido rinque de patinação e música ao vivo na parte sul do Central Park. Como se vê, o saldo dessa Bienal é tão vasto e desigual quanto a própria sociedade de massas deste novo milênio.

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