Bienal do livro de Brasília discute a ditadura

O tema foi abordado pelos escritores Eduardo Galeano e Leonardo Padura durante o evento literário

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h01

BRASÍLIA - "A morte, muitas vezes, mente - quando se imagina que uma pessoa morreu, ela continua viva na memória, nas conversas, nas decisões". Foi com essa frase que o escritor uruguaio Eduardo Galeano definiu a resistência das pessoas que lutaram contra regimes totalitários. Ele se referia especificamente ao poeta argentino Juan Gelman, que morreu neste ano e cujo filho foi um dos desaparecidos da ditadura militar argentina.

Galeano participou ontem à noite de uma homenagem a Gelman, durante a 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que ocorre em Brasília até o dia 21. O uruguaio participa hoje de um debate com um tema muito oportuno, Futebol e Ditaduras na América Latina. "Essa relação foi essencialmente patrocinada pela Fifa", disse ele ao Estado, em entrevista exclusiva. "Essa entidade vive como um castelo, que obriga os jogadores a atuarem como macacos de circo. E, ao seu redor, sempre lhe abraçaram as ditaduras."

Galeano tratou do assunto em seus escritos esportivos, especialmente em Futebol ao Sol e à Sombra (L&PM), em que mostra como a Copa de 1978, realizada na Argentina no auge da ditadura, convivia diretamente com a tortura. "Enquanto o general Jorge Videla condecorava João Havelange (então presidente da Fifa) no Estádio Monumental de Buenos Aires, a poucos metros dali funcionava o Auschwitz argentino, o centro de tortura e extermínio, a Escola Mecânica da Armada."

O tema da ditadura também mobilizou a palestra do cubano Leonardo Padura Fuentes, autor de O Homem que Amava os Cães (Boitempo), em que ficcionaliza os últimos anos de vida de Leon Trotski. Questionado sobre a falência do socialismo em Cuba, o autor foi medido nas palavras, mas incisivo no conceito. "A burocracia foi uma das principais responsáveis pela derrocada da democracia socialista na antiga União Soviética, o que provocou a falência gradual do regime."

Padura não negou os problemas enfrentados por seu país, entendendo que lá "muito se fala e pouco se sabe". Mas, no seu entender, uma situação semelhante ao que ocorreu à União Soviética, onde as mudanças começaram graças à ação de um dirigente, Mikhail Gorbachev. "Em Cuba, o mesmo regime que sempre esteve no comando agora cuida para propor mudanças", disse.

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