Bienal do invisível

Mostra tem como foco a arte social e elege conflito como tema

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h27

Tornar visível o invisível foi o grande desafio do pintor suíço Paul Klee (1870-1940), que, para atingir seu objetivo, teve de organizar um mundo avesso à ordem, hostil à dimensão espiritual e pouco tolerante com visionários. Promovendo a aproximação de universos e culturas distintos, o curador inglês Charles Esche imprimiu à 31.ª edição da Bienal de São Paulo um modelo mental que, se não é similar ao de Klee, ao menos evoca sua crença na expansão do território da arte pelo simples ato de compartilhar ideias.

O título da mostra, aliás, incorpora reticências no lugar do primeiro verbo da frase Como (...) Coisas Que Não Existem para que o visitante tenha a liberdade de complementar as ações dos artistas participantes - 100 no total, apresentando 250 obras, a maioria voltada para questões sociais. Contudo, não se trata de uma bienal política, insiste Esche, apesar de provocar polêmica mesmo antes de começar - artistas palestinos e libaneses ameaçaram boicotar a mostra por receber patrocínio israelense.

Por outro lado, tampouco é uma bienal voltada para objetos de arte. Ela se apoia na relação interpessoal como veículo de transformação social. Para começar, a entrada da Bienal não terá catracas. O público que visita o Ibirapuera será recebido numa área de convivência que funciona como extensão do parque. O visitante só segue adiante se tiver vontade de ver arte, descobrindo no percurso a obra de jovens como o brasileiro Yuri Firmeza, de 32 anos, ou veteranos como o polonês Edward Krasinski (1925-2004), autor de objetos com formas resistentes à definição, mas vistos, nos anos 1960, como surrealistas. Outro veterano morto, o dinamarquês Asger Jorn (1914-1973), está também representado por um trabalho da época, em que pesquisou a ressonância da cultura da Europa setentrional pré-cristã entre os seus contemporâneos.

Os curadores consideram que as imagens - ou objetos - em si não fazem tanto sentido individualmente. Sua importância, segundo a lógica curatorial, estaria baseada na capacidade de estabelecer conexões ou nas transformações que essas imagens articulam. Trata-se, assim, de uma bienal que assume a crise da representação e faz força para tornar visíveis "coisas que não existem", mesmo correndo o risco de ser uma mostra focada na ação social. "Arte e sociedade sempre caminharam juntas", justifica Esche, conhecido como curador de bienais marcadas pela militância ideológica e resistência ao mercado - como a de Istambul.

Em São Paulo, o encontro com o "invisível" é traduzido em obras como a que retrata presos no mural do paraense Éder Oliveira (foto acima), um dos poucos artistas brasileiros (são pouco mais de uma dúzia) na mostra internacional, que vai até 7 de dezembro.

31ª BIENAL DE SÃO PAULO

Pavilhão da Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº,

Parque do Ibirapuera, portão3, tel. 5576-7600.

3ª a dom., 9 h/ 19 h; sáb. até 22 h. Até 7/12.

 

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